fragmentos do trabalho de João Castilho

domingo, 4 de novembro de 2012

Um palpite de ruína a qualquer hora

A barca é da antiga e atrasou um minuto para desligar-se de Niterói. Ela gira para seguir destino, deixando o rastro no caminho, que risca o mar preto com a espuma branca e o céu branco com a fumaça preta. Tudo nela conduz ao passado; das cadeiras azuis ''reformadas'' com os braços de madeira, que, descascando, denunciam a ruína, até as janelas guilhotinas, tão generosas com a brisa que invade. Olho pro lado esquerdo e... ruína (no campus da UFF no Gragoatá). Coletes laranjas no alto. É proibido fumar.
Seu design 3542 vem de Nova Orleans, USA, em 1950. Uma cidade que já virou ruína tem uma construção  viva, nadando na baia de cá.
Por maiores que sejam os indícios de ruína revelados, ela me acolhe muito mais que sua irmã mais nova.
Sou levado a crer que há construções nada construtivas e ruínas pouco arruinadas.
Descabelado estou.

sábado, 3 de novembro de 2012

Em algum lugar debaixo da poeira



Consta que:
nasceu ANA LUZIA ALVES CHAVES.: do sexo feminino.: de cor :..:
nascido(a) à Hospital Santa Mônica, Niterói .:
no dia dois (2) de janeiro de 1992.: às 20 .: horas e 15.: minutos

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Brincadeira

Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína. Aqui tudo parece que é ainda construção e já era ruína. Aqui tudo aparece na construção e não é só ruína. Aqui tudo aparece pra fora da construção e só ruína. Aqui tudo parece que era ainda construção de ruína e já é pó. Aqui tudo aparece, parece, desaparece e some. E por mais distraídos que fôssemos, ainda era preciso buscar distrações. E por mais atraídos que estivéssemos, ainda era preciso buscar traições. E por mais movimentados, atentos e dispostos, só saltava mesmo a busca distraída, despretensiosa, mas pretendida. Pretendemos. Construção e ruína. Angústia boa... Fica o que significa?

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


quando eu terminar de limpar a piscina tudo será resolvido.

#ruínasdiárias

alô, alô!! Wanda? E agora, como é que eu faço?


Eu quis tentar desistir em nome de um projeto. Quero dizer aqui que eu tinha um projeto! Era lindo!! Era tranquilo, o tempo, os pássaros, os amigos e eu mesma...! Ele era mesmo meu objeto de adoração e devo dizer que todas as minhas dores viravam suspiros quando eu lembrava dele!! Tocava até uma música!! Era lindo... era um projeto e eu sabia que... O mar... Eu nadava no mar. Sem parar eu nadava. E o projeto crescia e flutuava!! Por cima dos prédios e arranha-céus as folhas voavam... Gente!! Olha aqui!! Vem cá ver como ia ser lindo!!! Iam ter até cores!! Muitas cores! O que eu quero dizer com isso é que eu tinha um projeto!! E fui até Wanda, convicta de que seria o melhor pra todos. Eu me afastaria assim não tão afastada mas me afastaria para afinal deixar vocês com suas ruínas e eu com meu enorme projeto de lego colorido e flutuante.  E ela me disse que esse projeto não existia. É mole? Agora mais essa! Que pra construir não existe projeto, pra construir existe o presente. E nunca se sabe como as coisas vão terminar... Acreditar num projeto é uma escolha medíocre, ela disse... O pior é que ela sabe que eu nasci pra projetar!! Essa é a unica coisa que sei fazer na vida! Passear pelos tempos.. Porra, Wanda, você sabe!!! eu disse. A Wanda me chamou de medíocre e o pior é que eu concordei. Projetar é ruína. É pisar na ruína pra dizer que ali vai existir... Já existe, só existe. Agora não dá mais tempo. É, Wanda...  Estou aqui. Já enxergo os pedaços, os cabelos, as borboletas, as orações... Mas se o concreto me tira tanto, e você me tira o meu projeto... Pra onde eu vou?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012



quando eu vomitar as borboletas tudo será resolvido.

Memória metalinguística- Ontem achei um caderno de álgebra...


Saudades daquele futuro da infância, em que eu tinha mais de 1 metro e 60 e você ainda cavalgava por aí, com espada, coroa e o escambau. Tudo era sempre começo. O futuro acontece primeiro em nós e quase nunca condiz com o que vem a ser de fato. Melhor, arrisco dizer que só existe o primeiro, de dentro, inventado e o resto é tudo presente espalhado debaixo de um monte de árvore de natal, cercados de papai Noel, Coelhinho da Páscoa e outras mentiras mais graves. O meu futuro era ótimo! Embora fácil demais. Aí não serve. Não é assim que a gente aprende no teatro? Nada podia dar errado, risco zero, vitória garantida, felicidade plena, eterna corrida pro abraço, eu tinha mais de um metro e sessenta olha aí?! Pra você não devia ser tão bom. Cavalgar se torna cansativo quando só se faz isso 24 horas por dia, ou mais! Meu futuro era um dia só, um dia imenso, de 24.000 horas pelo menos. Sem falar no passado que ele carregava em que eu atuava com o Al Pacino, a Laura Cardoso, o Jhony Depp, o Tony Ramos, o Anthony Quinn, o Pedro Cardoso, a Audrey Hepburn, o Paulo Autran, o Brad Pit e o Selton Melo. Fernandão não aguentava mais ser minha avó, toda novela era isso! Eu chorava cantando “Carolina” com o Chico e o Caetano juntos em minha homenagem. Eu tinha filhos e te dava um descanso da cavalgada. Você ia do cavalo pra cobertura na Vieira Souto que às vezes era casa na montanha e até Ilha deserta quando me revoltava com o mundo. Eu ajudava uma porção de gente, tinha escola de arte, projeto na África, em Bié pra ser mais precisa, sede no Nordeste, eu era praticamente um Deus. Pra quem já quis ser Papa. Juro! A minha primeira decepção foi saber da impossibilidade de me tornar Papa. “Que injusto!” esbravejei contra o machismo no auge dos meus cinco anos e meio. Quanta memória cabe em 1 metro e 58? Se depender de volume tem alguma coisa errada ou então sou 95% lembrança e 5% de água. Acho que fiquei desidratada de tanto chorar. Eu devia te fazer cavalgar até hoje sabia?! Era tão melhor quando a solidão era compartilhada! Dois vazios imensos e uma lua no meio. Agora que sou eu e esse Austríaco louco que grita qualquer coisa dentro de mim, esse hóspede estrangeiro que tampouco conheço e nem ao menos fala a minha língua. Meu inglês é ruim, mas ele também nem se dá ao trabalho de tentar, continua balbuciando esse quase alemão desesperador. O pior de tudo é estar a sós com ele. Um pouco de idade a mais nos pés faz falta em momentos como esse. Mas sequer completei os dedos, o resto é pose de quem sempre teve que se fazer de maior e ainda assim é barrada em porta de boate. 17 é pouco, mas o suficiente pra cortar um futuro em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos do mundo.Será que vou ter que recolher tudo nos próximos 83 anos que me restam? “guarda tudo depois”, não é assim que a gente aprende? Será que o estranho veio me trazer os dois pedaços de futuro que caíram na Áustria? Será que um dia terei um Japonês dentro de mim? Como é que está o seu cavalo numa hora dessas? Quantos presentes cabem debaixo da nossa árvore de natal? E se eu falhar? E se alguém encontrar parte desse futuro e se negar a me devolver? E se te acharem primeiro? Hein? Eu me mato! O quadro cada vez mais cheio de funções e logaritmos e eu aqui com questões tão mais intrigantes. Dá vontade de levantar e escrever os meus problemas também. Sempre me diverti com a possibilidade que carregamos de enlouquecer a qualquer momento. Deveríamos usa-la de fato com mais frequência. Será que um dia serei capaz de ao menos ler isso tudo pra alguém? Será que o farei com a mesma tranquilidade com que revelo meus devaneios papais. Acho que não. Tenho a impressão de que já envelheci tudo antes. Agora resta colecionar cacos e marcas, enquanto espero as pernas cansarem. O sol sem protetor dos 15 começa a fazer efeito junto com a Vodka da formatura, os Mc Lanche felizes e saltitantes por causa do brinquedo da infância, a futura cerveja da faculdade, as noites viradas do vestibular, das festas, das angústias, das cólicas, dos filhos que chegam, dos filhos que não chegam, dos filhos que seguem, dos filhos que tem filhos, do fim que tarda mais sempre aparece.