fragmentos do trabalho de João Castilho
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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Um beijo pro Léo!

- Moço , você tem isqueiro ?
- Tem do pequeno.
- Serve.
- Qual cor?
- Pode ser o preto.
- Você não é aquela menina da novela?
- Não.
- Tem certeza? Você é igualzinha a ela
- Se eu tenho certeza?
- Você tira uma foto comigo?
- Olha, você pode me dar o isqueiro e eu vou pra casa pensar se eu sou a menina da novela mesmo.
- Então tá. Aqui.
- Obrigada.
- Tchau. E mande um beijo pro Léo Jaime!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

o negócio


Victor – Um ponto cinza, dentro de um buraco branco, no canto da copa. O buraco, o buraco branco é causado provavelmente por  infiltração, e o buraco cinza tá bem centralizado dentro desse buraco branco, minto, o buraco causado pela infiltração é cinza e deixou de ser branco porque o gesso caiu, então e o gesso cai o que fica é o reboco que é cinza. Então: o buraco branco dentro de um buraco cinza causado por infiltração no canto da copa. (Entra Fe em direção ao canto da copa, Victor observa.) Um buraco branco, minto, cinza, causado pela distância entre o buraco branco e o canto da copa (Ana assume o canto da copa). O buraco cinza encosta no canto da copa (Fe encosta em Ana).
Ana – Oi?
Victor – O canto da copa fala.
(Fe tenta se explicar)
Ana – Tá. Mas não dá, tá?
Fe – Não, porquê..
Ana – Esse tipo de brincadeira não dá.
Fe – Não é brincadeira.
Ana – Brincadeira destrutiva em espaço público não dá.
Victor – O canto da copa se irrita com a destruição do ponto cinza.
Fe – Eu tava calculando o espaço que eu deveria, para alcançar...
Victor – O ponto cinza tenta conciliação.
Ana – Mas então, já deu.
Victor – O canto da copa se mantém firme.
Fe – Porquê? (Fe continua falando tentando se explicar, engolida pela Ana e Victor)
Ana – Não. Só isso. Tudo bem, cara, não fica estressada. Só não dá pra quebrar a parada.
Victor – Conflito entre canto da copa e ponto cinza.
Fe (confusa ou dissimulada) - ... tu viu onde?... é...
Ana – Eu vi o que?
Fe – Tu viu o que eu ia estragar? Eu não ia estragar.
Ana – Clara que ia cara, o negócio é super delicado, super fino...
Fe (exaltada) – Tudo bem!
Ana (exaltada) – Tudo bem o que?
(Elisa entra e pula nas costas da Fe que grita)
Victor – ponto cinza é surpreendentemente atingido por maça.
Ana – Oi flor.
Victor – Maça abraça canto da copa.
Ana (pra Elisa) – Ainda bem que você chegou. Tava tenso o ambiente.
Fe (exaltada) – Ah, tava tenso o ambiente!
Victor (sendo beijado pela Elisa) – Maça do amor.
Fe (pra Ana) – Não dá pra tocar nas coisas aqui, é isso?
Ana – Dá pra tocar, o que acontece: você tá puxando aqui...
Fe – Eu sei o que acontece...
Ana – Fui eu que botei o negócio que tá ali. Esses canos todos aí, eu ajudei a botar.
Fe – Que canos? Nada a ver!
Victor – Canto da copa e ponto cinza partem para a mão.
(Fe e Ana continuam discutindo mais próximas)
Victor – Fixa de gaza entre canto da copa e ponto cinza.
Ana (pro Victor) – Fixa de gaza não. Calma aí cara.
Victor – Canto da copa se interpõe a descrição.
Ana (pro Victor) – Cara olha só, eu to muito tranquila, eu to tipo rindo.
Fe – Tá tranquila porquê tu fica estressando os outros, sabe que isso é péssimo né?
Victor – Maça do amor.
Ana – Vamos fazer o seguinte, eu vou ficar aqui na janelinha...
Victor – Maça do amor.
Ana - ...você quebra essa merda, e depois não vem falar nada comigo não.
Victor – Maça do amor.
Elisa – Nossa que baixo astral, gente.
Fe (exaltada) – Claro, porquê é uma coisa que eu tava fazendo e tu vem aqui e interfere. Tudo bem, a gente vai ficar horas discutindo uma coisa que não tem nada a ver.
Ana – Não vai ficar horas discutindo, se você parasse pra ouvir. Eu vi que você realmente ia quebrar o negócio e não tinha necessidade...
Fe -  Mas da onde eu ia quebrar?
(Ana ri)
Fe - ...eu não tava puxando. Ela só ri.
Ana – Você tá ai falando no meu ouvido, uma coisa que eu só fiz uma crítica básica.
Fe – Tu nem esbarrou em mim, pra começar.
Ana – Você não consegue nem perceber isso que eu fiz..
Fe – Ah! Odeio isso.
(Elisa e Victor assistem como plateia. Fim.)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Memória metalinguística- Ontem achei um caderno de álgebra...


Saudades daquele futuro da infância, em que eu tinha mais de 1 metro e 60 e você ainda cavalgava por aí, com espada, coroa e o escambau. Tudo era sempre começo. O futuro acontece primeiro em nós e quase nunca condiz com o que vem a ser de fato. Melhor, arrisco dizer que só existe o primeiro, de dentro, inventado e o resto é tudo presente espalhado debaixo de um monte de árvore de natal, cercados de papai Noel, Coelhinho da Páscoa e outras mentiras mais graves. O meu futuro era ótimo! Embora fácil demais. Aí não serve. Não é assim que a gente aprende no teatro? Nada podia dar errado, risco zero, vitória garantida, felicidade plena, eterna corrida pro abraço, eu tinha mais de um metro e sessenta olha aí?! Pra você não devia ser tão bom. Cavalgar se torna cansativo quando só se faz isso 24 horas por dia, ou mais! Meu futuro era um dia só, um dia imenso, de 24.000 horas pelo menos. Sem falar no passado que ele carregava em que eu atuava com o Al Pacino, a Laura Cardoso, o Jhony Depp, o Tony Ramos, o Anthony Quinn, o Pedro Cardoso, a Audrey Hepburn, o Paulo Autran, o Brad Pit e o Selton Melo. Fernandão não aguentava mais ser minha avó, toda novela era isso! Eu chorava cantando “Carolina” com o Chico e o Caetano juntos em minha homenagem. Eu tinha filhos e te dava um descanso da cavalgada. Você ia do cavalo pra cobertura na Vieira Souto que às vezes era casa na montanha e até Ilha deserta quando me revoltava com o mundo. Eu ajudava uma porção de gente, tinha escola de arte, projeto na África, em Bié pra ser mais precisa, sede no Nordeste, eu era praticamente um Deus. Pra quem já quis ser Papa. Juro! A minha primeira decepção foi saber da impossibilidade de me tornar Papa. “Que injusto!” esbravejei contra o machismo no auge dos meus cinco anos e meio. Quanta memória cabe em 1 metro e 58? Se depender de volume tem alguma coisa errada ou então sou 95% lembrança e 5% de água. Acho que fiquei desidratada de tanto chorar. Eu devia te fazer cavalgar até hoje sabia?! Era tão melhor quando a solidão era compartilhada! Dois vazios imensos e uma lua no meio. Agora que sou eu e esse Austríaco louco que grita qualquer coisa dentro de mim, esse hóspede estrangeiro que tampouco conheço e nem ao menos fala a minha língua. Meu inglês é ruim, mas ele também nem se dá ao trabalho de tentar, continua balbuciando esse quase alemão desesperador. O pior de tudo é estar a sós com ele. Um pouco de idade a mais nos pés faz falta em momentos como esse. Mas sequer completei os dedos, o resto é pose de quem sempre teve que se fazer de maior e ainda assim é barrada em porta de boate. 17 é pouco, mas o suficiente pra cortar um futuro em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos do mundo.Será que vou ter que recolher tudo nos próximos 83 anos que me restam? “guarda tudo depois”, não é assim que a gente aprende? Será que o estranho veio me trazer os dois pedaços de futuro que caíram na Áustria? Será que um dia terei um Japonês dentro de mim? Como é que está o seu cavalo numa hora dessas? Quantos presentes cabem debaixo da nossa árvore de natal? E se eu falhar? E se alguém encontrar parte desse futuro e se negar a me devolver? E se te acharem primeiro? Hein? Eu me mato! O quadro cada vez mais cheio de funções e logaritmos e eu aqui com questões tão mais intrigantes. Dá vontade de levantar e escrever os meus problemas também. Sempre me diverti com a possibilidade que carregamos de enlouquecer a qualquer momento. Deveríamos usa-la de fato com mais frequência. Será que um dia serei capaz de ao menos ler isso tudo pra alguém? Será que o farei com a mesma tranquilidade com que revelo meus devaneios papais. Acho que não. Tenho a impressão de que já envelheci tudo antes. Agora resta colecionar cacos e marcas, enquanto espero as pernas cansarem. O sol sem protetor dos 15 começa a fazer efeito junto com a Vodka da formatura, os Mc Lanche felizes e saltitantes por causa do brinquedo da infância, a futura cerveja da faculdade, as noites viradas do vestibular, das festas, das angústias, das cólicas, dos filhos que chegam, dos filhos que não chegam, dos filhos que seguem, dos filhos que tem filhos, do fim que tarda mais sempre aparece. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Versão do texto da caca




  
Por favor não me entendam mal, é que eu conheço tanto vocês que me permiti falar algumas coisas que eu comecei a pensar nos últimos minutos. Eu não estou de acordo em começar desconstruindo e não era essa de fato a minha intenção, nem faz o meu gênero, vocês me conhecem, a gente se conhece. Tanto que até me dou esse direito, ou licença poética, levando em consideração o título do nosso projeto, se é que posso me referir a ele desse modo. Também não sei se posso chamar isso de começo, nem o tempo pensado de minutos, nem as pessoas que conheço de vocês, tudo muda tanto que me dá enjoo. É que às vezes as palavras nos obrigam a usá-las mesmo sem que de fato queiramos dizê-las e isso se aproxima um pouco de onde eu quero chegar ainda que mais distante do que antes não pelo campo linguístico talvez algo mais magnético não se preocupe não vou falar de metafísica, não mesmo. Até porque eu não sei mais falar sobre quase nada que eu quase sabia antes. É claro que coisas novas aparecem, mas elas não me interessam e às vezes até me enjoam. Saberia discursar sobre o dia-a-dia da Winits, por exemplo, se em algum momento for do interesse de vocês... É que antes eu desconfiava estar ficando burra, mas era uma sensação passageira, agora é uma certeza, é diferente. Tenho lido, isso é verdade, não mais por uma questão de condição e é o que me salva, passar o olho pelo papel sem perceber o que fica, tem sido sempre assim. Faço uma viagem de duas horas e meia por dia, não tenho um Iphone e ouvir música demais às vezes me causa um embrulho no estômago terrível! Ler é o suficiente, imagino, pelo menos tem sido. É isso, tudo está sendo, e eu continuo enjoada sem saber o que sou, nem o que procuro ser, mas agora com o agravante de ter que me definir pra entrevista da capricho. Mas é claro que existem os pontos positivos dessa história toda, sempre existem, minhas unhas cresceram, tenho uma dermatologista e uma assessora, uma assinatura na minha carteira, o meu aluguel no final do mês, pessoas que fingem uma admiração incondicional e por algum motivo isso tudo é mais importante do que todo o resto que inclui vocês. Eu não tenho mais tempo pra nenhum de vocês. Nenhum de vocês, meus amigos, sem dúvida os melhores cabe na minha vida. E pior! Tenho a sensação de que nunca vou terminar de fazer o que eu tenho pra fazer. Assim sem rodeios. Cheio de pontos finais. Sem esse "livre" fluxo de pensamento- é Lissovsky isso?-Assim: objetivo. Sintético. Funcional. Sem poesia alguma, exatamente como tem sido pra mim. E é esse o momento em que choro e penso que tenho que aprender a fazer isso conscientemente, lá é muito importante como pra nós é falar do vazio ou determinar funções e dividir dramaturgias... E mais uma vez não sei se posso usar esse pronome, cada vez existe menos esse ‘nós’ antes tão trivial, nós da Miúda, nós do teatro de véspera, nós do ucrânia 3, nós do usina teatro, nós de cavalos e baias e bares e salas de ensaio, até caco pra mim já foi nós. Por dentro ainda sou cheia de nós, eu garanto! Só não sei mais a que nós pertenço e tenho vontade de vomitar e acabar com esse nó.. na garganta. Por isso precisei cuspir essas palavras, mesmo tendo que correr com elas agora e ir pro lado dos que escolhi pra jogar no meu time, mesmo sabendo que eram todos pernas-de-pau se comparados aos artilheiros que eu tinha do meu lado... Perder é sempre uma escolha difícil. Peço apenas que me mantenham assim, na reserva, sem me deixar virar torcida por completo, o que me tiraria a possibilidade de estar em campo, mas me faria extremamente feliz e orgulhosa! É que já tenho que ser feliz e orgulhosa o dia todo pra tantas lentes e planos que me dá ânsia só de pensar. Não deixem de fazer o que tiverem pra fazer, mas me respondam durante algum cafezinho depois do ensaio, ok?