fragmentos do trabalho de João Castilho
Mostrando postagens com marcador privado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador privado. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Mecanismos do giro



- esse é principalmente pra Fe, e um pouco pra Ana. Foi gravado no segundo dia de ensaio, muito primário e genuíno. É ótimo perceber o corpo de vocês começando a escolher um caminho de exposição.
- um manual de instruções pro seu corpo Fe.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

equação do caos

 \left\{
       \begin{matrix}
        \dot x & = & 10(y-x) \\
        \dot y & = & 28 x -y-xz \\
        \dot z & = & -(8/3)z+xy  
       \end{matrix}
       \right.


pequena wanda-x começa suas aulas de piano aos cinco por vontade própria. aos 8 faz seu primeiro concerto. aos 14 entra para uma orquestra. aos 30 é considerada a maior pianista de sua década. aos 38 é atropelada por um carro e morre sem nunca ter se apaixonado. pequena wanda-y aos 2 anos prende sua mão na porta e perde seu dedo indicador direito. aos 17 foge com um homem agressivo.  aos 22 se interna numa clínica de qualquer coisa.  aos 34 tenta pintar quadros para canalisar a depressão. aos 38 é atropelada por um carro e morre. pequena wanda-z começa suas aulas de piano aos cinco por vontade própria. aos 6 para por vergonha. aos 15 engravida para não ser abandonada pelo namorado. aos 17 odeia o filho. aos 26 volta a tocar piano. aos 38 faz seu primeiro concerto, num evento de caridade no asilo em que a mãe trabalha.  os velhos dormem. o filho não vai assistir, pois sente vergonha. pega o carro, clair de lune, os dedos dançando no volante, fecha os olhos, faz a curva na terceira rua à esquerda, sobe a calçada, os dedos dançando no ar, arremessa o carro contra duas mulheres, borboleteia para fora da janela. por um problema neurológico só consegue mover os dedos, passa o resto da vida entubada, morre aos 67 anos, tocando alguma sonata no ar que ninguém reconheceria.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

horizonte...


  • espaço sem memória e espaço incorpóreo
  • extinções, esquecimentos, distrações, detalhes
  • construir expectativas em ruína
  • expectativas depositadas em objetos aleatórios
  • medos privados e fantasias pessoais em lugares públicos
  • buscar impossibilidades e impedimentos para estabelecer um encontro. dissimular

Atores espalhados pelo palco, girando no próprio eixo.


   Janice vivia enamorada de seu umbigo. Não fazia muito tempo que havia dispensado dois gêmeos fortes, másculos e apaixonados para poder ficar sozinha consigo mesma e apreciar – sem uma alma para lhe roubar a paciência e o humor – aquele buraquinho perfeitamente bem delineado de sua barriga.
   No inicio, era em frente ao espelho, com uma mão a arriar a calca e a outra a levantar a blusa próxima aos seios, que a moçoila se desmanchava em elogios. Que umbiguinho divino!, gabava-se para si mesma. Que curvas primorosas! Que coisinha mais magnífica! E assim sobrevinham que issos e que aquilos até chegar a noite.
   Numa sexta-feira, ao olhar para baixo casualmente, percebeu que poderia enxergar muito mais detalhes de sua obra-prima natural se a admirasse diretamente, sem mediação. Foi o fim do espelho e o inicio do torcicolo. Janice encurvava-se cada vez mais para aproximar seu rosto do umbigo. Aos poucos, sua coluna foi se transformando num arco. Janice já não era mais capaz de ficar novamente ereta: levava as semanas, os meses, os anos enroscada em si mesma, apaixonada que estava por seu buraquinho.
   Numa outra sexta-feira, ao tentar ajeitar suas costas arqueadas, tocou sem querer os lábios em sua barriga. Muitissimo feliz com a nova possibilidade, repetiu infinitamente o mesmo gesto. Impulsionava o tronco para frente e beijava seu umbigo. Beijava beijava e ria satisfeita. Dos beijos, passou às lambidas. Gastava horas lavando seu umbigo de cuspe.
   Numa sexta-feira, de súbito, prendeu lua língua num buraco aberto pela acidez de sua saliva. Mesmo assustada, Janice amou a novidade. Com o transcorrer dos dias, das semanas, dos anos, o buraco tornou-se gradativamente maior: penetrava nele não só a língua, mas também a boca e o nariz.
    Numa derradeira sexta-feira, Janice trancou as orelhas no seu umbigo. Ao invés de tentar tirá-las, introduziu-as ainda mais, arrombando de vez seu buraquinho. De repente, zupt!, foi-se a cabeça de Janice para dentro de sua barriga. Extasiada, forçou a passagem. Os ombros entraram com uma certa dificuldade. Depois deles, o buraco se distendeu, facilitando o ingresso do resto de seu corpo. Os braços, o peito, as pernas, os pés submergiram em Janice como água escorrendo pelo ralo. O ultimo a sumir foi o piercing.
   Hoje, Janice vive feliz, inteira dentro de seu umbigo. (Stigger, Veronica. O trágico e outras comédias. Editora 7 letras, 2007)