fragmentos do trabalho de João Castilho
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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Compondo Rory.

     - Permanecer nas escadas, cantar ou realizar pregações religiosas, danificar ou sujar as embarcações, viajar com animais ou com trajes de banho. ( acende um cigarro e sorri)

*coreografia "o sorriso de Rory"

    -  (dando-se conta) Ah...eu tenho que contar, né? Todo mundo chegou aqui e contou. Tripulação...oito, capacidade por passageiro.... dois mil, sentados são mil e trinta e cinco, em pé novecentos e sessenta e cinco.  Dois mil e oito coletes salva vidas, duzentos de criança. Seis bóias, aparelhos flutuantes....doze , ALI! 1,2,3 ali,ali,ali 4...5. 5 olhares que se multiplicam dessa posição. 6, ALI,ALI. Sete, eu não posso perder nenhum. 8,9 aquele que olha mas finge que não olha. DEZ, DEZ(confunde as palavras e as ordens) desculpa. (cai e ri) eu espio pra fingir que eu não olho. 11, 12,13 (cai e ri) ali, 14,15 ali, desculpa, deixei cair meu pensamento. (gira e repete as informações de forma desconexa até tomar consciência de si)

-   Ihh...A gente nem se conhece. Desculpa. Ai, que exposição desnecessária.... A gente nem se conhece...Eu juro que eu vou sumir, eu juro. Desculpa ,que foi que eu fiz... viver é tao constrangedor e tudo que a gente menos quer dizer fica estampado entre a perna empapada e o azul. Eu nem fumo na verdade. (apaga o cigarro sem graça

* coreografia livro. (até explodir e pegar a maça)

- Eu tenho uma coisa pra falar. Ei! Eu preciso dizer uma coisa que eu comecei a pensar nos últimos minutos. (comendo a maça) Tudo que eu não sei falar inclui esse entre. Eu não sei o que eu estou fazendo aqui se eu odeio esse lugar.  Fico pensando nessas coisas. Ai  uso o esbarrão para tentar quebrar algo que não sei como se fabrica mas as desculpas me atropelam anulando o ato. Eu queria aprender a não pedir desculpas mas essa coisa premeditada  da alegria é muito decadente... Tem um homem aqui, o francês, ele é muito espaçoso e usa uns sapatos enormes. A mulher dele, coitada, é obrigada a lavar todos os dias as barcas ouvindo desaforos diários. Ela consegue ser mais irritante quando esta bem-humorada. O nome dela é Inês porque perdeu toda a cor no mar. Ela era ruiva e deixa tudo , ate a morte , com cheiro de maça verde. Ai todo mundo se banca, se esbarra, se bica, se beija, sinteco. E isso porque são 40 delas soltas pela cidade, 40 delas enquadradas no metro, 40 delas dando bom dias na padaria e quarenta aqui, se esbarrando. Mas de quem eu tenho mais pena mesmo é da pequenininha....tadinha.

- Não vale o que imaginamos e muito menos sorrir desse jeito pra cobrir o silencio que sempre fica e por isso sejamos concretos, ó  bancos, cimento, ferrugem. bolsa, cigarro, veja multi uso maça verde, sapato. O azul se espalha pela barca impossibilitando a busca por outras distrações e todo mundo prefere ficar de olho no meu... Ai eu espio. Eu espio porque é culpa dele. Do azul.

- Eu estava chorando porque era mais fácil do que rir, mas não traria diferença era só agua da baia com derramamento de óleo. Eu estava parada, de olhos fechados, tentando me equilibrar e ouvi uma baleia passando. Nem tao fria que parecesse cínica, nem tao perto para ficar cega. Eu fiquei ali, esperando que a baleia me engolisse, no auge da sua crueldade, ela foi embora e me deixou vivendo. Eu só lembro do barulho do meu estomago. 











quinta-feira, 14 de março de 2013

Situações no banheiro. Inês e Ana.


 SITUAÇÃO 1 (Início - apresentação Inês e Ana):

ana: tem mesmo alguem ai?
ines: desulpa. eu to saindo


ines canta em gromelô. finge que está vomitando enquanto arruma o cabelo. balança. faz barulhos alonga a língua. ana escuta pela porta. olha pela fresta por baixo da porta. inês abre a porta.

ines: oi?
ana : oi. meu brinco caiu acabei de achar.
ines: vc é a faxineira?
ana: aham

se cumprimentam


ines: pode entrar


SITUAÇÃO 2:

ana dança leões ao léo dentro do banheiro.


ines: moça. desculpa. eu precisava ir ao banheiro. esqueci...
ana: só um minutinho. já to saindo
ines: o banheiro lá de cima continua com aquele problema, né? de ventilação
ana: pronto
ines: desculpa. não vai dar pra fazer aqui
ana: vc pode fechar a porta
ines: não, eu preciso que vc limpe.
ana: ah. entendi


ana entra e tem um surto


ines: moça. vc esqueceu a porta aberta. e agora tá mais sujo
ana: é a minha técnica
ines: mas eu preciso que seja rápido.
ana: meu tempo
ines: vc não precisa ficar desse jeito. parece uma louca dançando
ana: e você que fala com o espelho? e fica cantando? eu ouvi. não tinha perdido brinco, não!
ines: vc fica espiando. eu vou reclamar de você
ana: vai, reclama. eu digo pro homem que anda com vc que vc fala sozinha.
ines: ele não anda comigo

Ele implicando com a postura de Ana


IMPLICÂNCIA 1:

Victor arrasta o banco e exibe Ana dormindo escondida. Ana logo se recompoe com a cara toda amassada, e um sorriso falso.

victor: engracada essa coisa de vc trabalhar em um lugar e deixar claro para todo mundo que não gosta de trabalhar aqui
ana: eu...
victor: EU gostaria de tratar bem as pessoas. EU gostaria de ter compatencia
ana: EU queria um incenso. vc tem? Tava procurando aqui atrás...
victor: vc trabalha aqui.... devia me dizer que eu não posso entrar com coisas que pegam fogo
rory entra


rory: uma senhora vomitou o banheiro inteiro pq ficou enjoada com esse cheiro de maçã verde
victor: estou reclamando da conduta dessa funcionaria ha tempos. ligo para o SAC e falo dessa funcionaria. a gente paga caro...... vc é digna de pena

ana:
vcs deviam pegar esses 4,50 e enfiar no cu




IMPLICÂNCIA 2:

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ana acende um incenso


victor: vem ai mais um episodio do show de imprudencias. ela nao limpa e tenta botar fogo na barca.
ana: esses objetos são meus
victor: vc está me colocando em perigo. eu vou chamar o segurança
ana: é ótimo. jasmim
victor: a ines adora. 


victor acende e cheira.
victor apaga e grita no ouvido de ana



victor: MALUCA! vc é maluca

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Bons diálogos para o INICIO


só existe espera.
ana espera na cadeira um pouco desconfortável. rory senta de pernas cruzadas no banco.
ana: posso te perguntar uma coisa? pq vc sentou de costas p mim?
rory: nao te conehço. calor, né?
posso te perguntar alguma coisa?
ana: vc nem me conhece... pode
rory: vc tá aqui ha muito tempo?
ana: o bastante... to indo tá


ana sai. victor senta


victor: lincença. vc acha que vai demorar muito?
rory: to aqui há bastante tempo.
victor: cheguei agora. vc viu?
rory: eu vi. vc nao vai virar pra lá? é que vc nem me conhece
victor: calculei o tempo errado
rory: vc tava pensando, né? te interrompi... que coisa. vou esperar outra hora... fiquei timida


rory sai. ana senta

ana: opa! tá ai ha muito tempo?
victor: porra
ana: saí pra comprar um cigarro
victor: to há ponto de explodir.... acabou minha paciencia....
ana: vc é muito engraçado..... tem uns tiques
victor: vc também deve ter... é só reparar
ana: ih, tá estressado. vc viu o menino? 

ana e vistor riem

ana: hahaha não ri não, que o pessoal fica chateado.

elisa entra

elisa: nao acredito q vcs tão rindo
ana: que isso... a gente tá chorando. eu disse que eles ficam chateados...

ana sai

rory: nossa esse pao de queijo tá borrachudo... não sei o que aconteceu.
victor: posso ver? ah é o último
rory: pode comer
victor: é, tá ruim.
rory: um amigo meu comprou 10.
victor: que dorga
rory: vc viu o menino que se empanturrou de pão de queijo?
victor: horrivel, né? mas acontece. qual sua religião?
rory: religião?
victor: é, vc tem religião?
rory: não
victor: opa. bom dia, hem.

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rory brinca com os dedinhos no banco

ana: a senhora é incapacitada?
rory: não, por que?
ana: todo tem que deixar as barcas agora.
rory: ah, desculpa... 

rory guarda os dedinhos no bolso e sai. 

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ines dorme. victor observa. rory abraça a mulher. analu pega sol na varanda. rory tenta escutar o cabelo de analu.
homem rouba a bolsa de ines e sai


ines: um homem robou minha bolsa!! soccorro!
rory. ninguem roubou sua bolsa! essa bolsa era do homem. eu vi ele empacotando
ines: tava aqui do meu lado. era minha.
rory: aquela era dele
ines: por que eu não posso ter uma bolsa?

victor entra correndo

Victor: ines! achei sua bolsa
ines: ai que susto! saiu um homem daqui agora. achei que ele tinha roubado minha bolsa
victor: achei no banheiro. tinah alguma coisa dentro?
ines: como assim? claro que tinha.  sempre tem coisa dentro da bolsa
victor: to perguntando se dentro da sua tinha.
ines: claro que tinha... aah, agora eu não quero andar com uma bolsa vazia

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Rory: To aqui pensando. De repente você é a pessoa que tem alguma coisa bonita pra me dizer.
Ele: Você deve estar me confundindo.
Rory: Não. Pode ser qualquer um. Não dá para acreditar 100% em horóscopos, né?
Ele: É, 100% não.
Rory: Então?
Ele: Que? você que me parou.
Rory: Mas você que tem alguma coisa para dizer.
Ele: E se eu eu não tiver?
Rory: E se eu disser que sou ninfomaníaca?
Ele. Não me importo. De verdade
Rory: E se eu disse que sou poeta?
Ele  Aí teremos um problema. Não gosto de poesia. Muito menos de metáfora.
Rory: Eu sei. Você passou e eu pensei: "Aquele homem não gosta de metáforas, se mesmo assim ele conseguir me dizer alguma coisa bonita, eu não preciso mais me matar"
Ele: E se eu não conseguir
Rory: Tudo bem, não precisa se cobrar tanto. É só um encontro não, é?
Ele: Não sei dizer.
Rory: Tchau
Ele: … tchau


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rory: achei a bolsa original
ines: oi
rory: a bolsa que foi roubada
ines: da menina que estava aqui, né?
rory: ah, achei que era você...
voce vomitou outro dia?
ines: não, foi a pequenininha

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RORY : Você tem um isqueiro?
ARQUITETO : Sim. (Procura) Não consigo achar.
RORY : Posso acender com o seu cigarro
ARQUITETO :  É um questão de honra. Acabei de usar
(Rory tira o cigarro da mão do Arquiteto e acede o dela)
RORY : Estamos fazendo uma coisa ilegal?
ARQUITETO : Não. Aqui pode.
RORY : Faz toda a diferença
ARQUITETO : (desiste de procurar) Toda.
RORY : Será que essa porta no teto abre?
ARQUITETO : Você só quer fazer uma coisa ilegal, né?
RORY : É. Melhor não ficar comigo.
(Rory tira uma foto da porta)
ARQUITETO : Vou ficar
RORY : Não abre.
ARQUITETO : Agora que tem a barca nova, todo mundo tira foto da antiga.... bom dia para ir à faculdade.
RORY : Você estuda o que?
ARQUITETO : Arquitetura e você?
RORY : Não estudo, não. Quer fazer design de interiores?
ARQUITETO : Não sei. Gosto de urbanismo
RORY : O que você acha daqueles prédios?
ARQUITETO : Grandes.
RORY : Bem observado. Posso tirar uma foto sua?
ARQUITETO : Ok.
RORY : (olhando a foto na tela) Ficou ruim. Não sou muito boa nisso.

ARQUITETO : Você tá só passeado?
RORY : Gosto daqui
ARQUITETO : Do que?
RORY : Do entre
ARQUITETO : Faz isso sempre?
RORY : Sempre nessa hora. Nunca te vi
ARQUITETO : Eu to atrasado
RORY : Que bom!
ARQUITETO : Prazer, Victor
RORY : Prazer, Rory (o arquiteto ri). Minah mãe tinha senso de humor.
ARQUITETO : Acho que chegou
RORY : Ok
ARQUITETO : Vai ficar?
RORY : Aham

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Inês - Opa, desculpa
Rory - De nada.
Inês - Machucou?
Rory - Médio. Eu gosto.
Inês - Entendi. Que pena. Eu tinha uma certa expectativa.
Rory - Não vem com esse papo pra cima de mim. (risos)
Inês - Não, é sério. Eu te vi e pensei: "ela é diferente".
Rory - De mim.
Inês - De mim.
Rory - Você é engraçada.
Inês - Eu sou bem sem graça na verdade
Rory - Pra mim você é engraçada.
Inês - Pra mim.
Rory - Pra mim.
Inês - Você mora aqui perto?
Ana - Tanto faz
Inês - Oi?
Rory - E você é?
Ana - Eu sou só isso aqui mesmo.
Rory (para A) - Acho que ela é Inês.
Inês - Ah, eu ouvi alguma coisa do tipo.
Rory (para A) - Você é daqui, então?
Ana - Defina daqui
Inês - Daqui é daqui. Daqui desse lugar. Daqui.
Ana - Gerada, concebida, nascida, crescida e envelhecida nesse metro quadrado daqui? Parece desesperador.
Rory (para Analu) - Eu acho que já te odeio.
Ana - Nossa
Inês - É, nossa!
Rory - Nossa o que?
Inês - Nossa o que o que? Só Nossa.
Rory -  Porque "nossa"? De onde vem isso? Nossa?
Ana - Nossa, de alguma coisa que pertence a nós. É como culpar toda a humanidade pelo erro de um.
Inês - Acho que é só Nossa. de Nossa Senhora.
Rory - Que senhora, gente? Que senhora é essa?
Ana - Inês! Será?
Inês - Ah, então você não é Inês?
Ana - Eu? Não.
Inês e Rory - Pena
Ana - É, que pena. Bom, desculpa...
Inês -  É, a gente tinha uma certa expectativa.
(acenam e saem, para lados opostos)

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(Analu conta os segundos de forma cronológica, apesar de se distrair às vezes. Victor esbarra na Fernandinha por baixo)
Inês - Ai! Como assim?!
(se olham)
Inês - Oi?! Tudo bem? Tudo bem? Tá?! (Dá um tapa na cara de Victor e sorri) Hein?!
(Victor deita no chão com as pernas suspensas e as mãos tapando o rosto: posição de cachorrinho. Analu para de contar por segundos)
Inês (para Analu) - Espera só um pouquinho? Aconteceu alguma coisa aqui com ele. Olha.
(Analu ri e continua contando. Fe faz cafuné na cabeça do Victor)
Inês (ronronando) - Ei! Psiu! Psiu!
(Victor dá um susto. Fe pula pra trás)
Inês - Ahh! Ará-rá-rá!
Analu (para Fernandinha) - Te pegou hein!
Victor (abraçando a fernandinha e rindo) - Tudo bem? Desculpa, a gente mal se conhece não é?!
Inês (esquiva) - Porque você chegou assim desse jeito por baixo?
Victor - Eu gosto de chegar assim inesperado (gira Fernandinha pro lado). Causa mais surpresa.
Inês - Ai.
(Victor vai em direção à Fernandinha)
Inês (se fazendo de vítima) Não...
(Analu e Victor gargalhando)
Victor- Você tá com medo?
Inês - É porquê tu chegou em mim...(confusa)
Victor - Ué, a gente mal se conhece.
(Fe e Victor num jogo de empurra e se aproxima)
Inês - Você vai... Você tá... Eu que tenho que. Eu que tinha que...
Victor: Qual seu nome?
Inês - Eu?
Analu- 22.
Inês - 22...
Victor- 22? (aponta para Fe)
Inês - Porque você tá apontando esse dedo pra mim assim? Porquê? O quê? (se aproxima da Analu) Olha pode me dar...
(Victor provoca Analu)
Inês (para Ana)- deculpa? A gente não se conhece...
Analu- Não.
Inês - Não.. Mas olha só, a gente está dividindo o mesmo espaço e ele (aponta para o Victor implicante) e essa pessoa chegou ali..
(Victor provoca Ana)
Ana (entre a contagem)- Ihh...
Inês - Viu? Vai sobrar pra ti.
(Ana encara Victor)
Victor (eufórico de diversão)- Ela tá te manipulando, você não tá percebendo?
(Ana imobiliza o Victor pelo cabelo)
Inês - Segura, segura...
Analu- Fala pra ela que você adora ela! Fala!
Victor- Eu adoro você!
Analu- ... Foi um prazer te encontrar na barca! Fala! Eu vim de barca nova!
Inês - Fala!
Victor- Eu vim de barca nova e foi um prazer te encontrar!
Inês - Agora ajoelha! Isso! fala! fala.
Victor- Foi um prazer te encontrar na barca nova.
(Analu volta a contar)
Inês - Que mais? hum? que mais?
Victor- Você fica ótima de listra. Você fica ótima de listra.
Inês (vaidosa)- Que mais?
Victor- Seus dentes são lindos. Seus dentes são lindos.
Inês (se aproxima do rosto do Victor e fala baixinho)- Fala!
Victor- Eu adoro seu sotaque. Eu adoro seu sotaque.
Analu (para a Fe)- Eu acho que já deu. O que você acha?
Inês - Não, não deu ainda.
Analu- Não?
(Fe balança a cabeça e o corpo do Victor em direção ao chão)
Inês - Olha só, o que você tem que falar, e tem que ter uma explicação muito boa, é porque que tu chegou assim por baixo, ali! E porque tu fechou o olhinho depois, e porque tu ficou naquela posição de cachorrinho, e depois me deu um abraço, e tu nem me conhece! (bica o Victor) Hein?!


Adaptação do prólogo e cena 1


Prólogo

Victor está no palco. Sozinho é sempre ansioso. Seus pensamentos precisam de outras personagens para se construir. Ele inventa para dar sentido às coisas como se sua existência dependesse do seu encadeamento de ideias. Acompanha as pessoas. Descreve e dissimula. O prólogo é dado como se estivesse pensando um romance. As meninas entram cada uma de uma vez. Não o escutam.

Rory entra

Victor: Não que isso tenha alguma importância, mas Rory significa cabelos vermelhos e ela nem é ruiva. Talvez seja esse o trunfo da bailarina, pra ela o 'pra sempre' nunca existiu. Ela não tem amarras, não tenta se segurar em nada enquanto cai... Para cair basta estar de pé.

Ana entra

Victor: Mas Ana não. Não tem nada que seja só dela. As vezes até se confunde nas outras pessoas, olha de relance e pensa ter se visto. "Desculpa, achei que fosse eu". Isso é ótimo. "Achei que fosse".

   Uma bem branca, com sardinhas mas não chega a ser albina, é pequena como sua boca, cabelo, olhos, nariz. A outra não, é toda grande, nádegas, escápulas, braços, costas, seios, mas a cabeça é pequena. Sinteco. Fica. Bancos, veja multiuso maça verde, mais poder de limpeza. Duas mulheres. Tem alguma coisa grande na pequena? A mente... a mente deve ser grande, vira a página.

São 40 delas, soltas pela cidade. Duas delas se esbarram no metrô. Quem esbarra não pede desculpa e a esbarrada, sem perdão, joga a outra na frente do trem que vem chegando. Essa situação provocou uma ação em Paris. Fechem as estações com vidros, de modo que somente as portas se abram, quando o trem chegar. São 40 delas, soltas pela cidade. Duas delas se amam durante meia hora. Duas delas se encaixotam no  centro do bairro. Duas delas envolvidas na produção de pães de queijo. Duas delas na venda de mate supervalorizado. Duas, delas, nota-se o pronome ''minha''. Quantas sobram?

Inês entra

Victor: Inês, ali! preciso lembrar, sem falta, são duas da tarde. Eu preciso falar uma coisa que eu tava pensando agora há pouco. Quando ela  terminar o que tem pra fazer, ela responde?

Inês se encaminha para o segundo andar da barca

Victor: Ah... não sobe hoje, não!!!


Cena 1

Victor observa Inês minuciosamente. Cada gesto dela é um roubo de ar dele.
Victor: Uau. Totalmente Circunstancial!

Inês: Oi?

Victor: haha ai ai. Desculpa. Eu costumo nomear meus encontros com mulheres.

Inês: Isso não é um encontro

Victor: Claro que é. Estávamos os dois passando no mesmo lugar na mesma hora. Probabilidade é matemática.

Inês: Achei que encontro fosse química.

Victor: Erro comum.

Inês: Por que Circunstancial?

Victor: Bom, não é programado, nem almejado, sequer manipulado, evidente, preliminar, autoritário...

Inês: Eu achei um pouco autoritário.

Victor:

Inês: Tudo bem. Eu gosto. Quer tomar um café, ó grande mestre dos encontros?

Victor: O que? e mudar o rumo das coisas? Não, a gente tem que se despedir aqui.

Inês: E se eu não quiser?

Victor: Não depende de você. Qual o seu nome?

Inês: Circustância

Victor: Prazer

Victor faz como quem vai beijá-la. Ela enfia os dedos dentro da sua boca e sai. Ana passa limpando os bancos.

Victor. A mulher grande limpa meu assento. Que prazer. Sinto cheirinho de maça verde. Talvez seja interessante que eu mude de assento para continuar o trabalho dela, mas só saio daqui se ela me tirar. Sua cara revela que não está confortável no lugar que ocupa. (Ana tosse para fazê-lo sair) Ela tosse.

Victor. (volta atenção para Rory) A pequenininha quase se anula, sua presença não faz questão de estar presente. Ela muda de posição e esse é o único indício de sua presença. Se ela não mudasse, talvez achasse que fosse o sinteco. O recipiente de veja está aberto.

(Ana grita)

Victor. Ela grita, com certeza não gosta desse trabalho.

Ana. Eu adoro esse trabalho.

Victor. A mulher se manifesta com ímpeto. Estranho. A pequena olha, depois de tanto tempo recolhida. Será que vai dividir alguma coisa com a gente? O dedo esquerdo bate no andamento 12 12 12 12. Indício de ansiedade ou chamar o foco para si? Conseguiu. A mulher grande insiste em limpar os bancos com tantos outros lugares sujos. Veja maça verde limpa qualquer tipo de material. Interessante.

(Ana derrama um pouco de veja na roupa dele.)

Victor: Almejado

Analu: Ihhh, ó, dá licença que eu tenho que limpar toda essa parte aí e se eu parar pra ficar de conversinha não consigo terminar e amanhã vai ser duas vezes pior e nada tão ruim como dormir sabendo que amanhã vai ser pior do que hoje.

Victor: Convincente

Analu: Sai

Ana vai para o fundo de cena até sumir sem que lhe percebam. Rory pula em cima do Homem.
Analu: Te pegou, hem?
RORY: AH, DESCULPA! É QUE VOCÊ ME DEU UMA VONTADE DE ME JOGAR ASSIM, SABE?
HOMEM: É... OK.
RORY: LEVANTANDO- SE:  PRONTO.
HOMEM EMBASBACADO: NOSSA! EU REALMENTE... NEM SEI COMO REAGIR. VOCÊ ME SURPREENDEU MESMO. UAU... (RI) PARABÉNS.
RORY: NÃO ME LEVA A MAL. É QUE SE EU NÃO FAÇO, NÃO CONSIGO DORMIR DEPOIS. FICO ME REMOENDO, PENSANDO COMO SERIA, VIRANDO DE UM LADO PRO OUTRO, ACABO COM AS MINHAS UNHAS, VIRA UMA QUESTÃO EXISTENCIAL, SABE? É SÉRIO! NUNCA TEVE ISSO QUANDO DEIXOU DE FAZER ALGUMA COISA?
HOMEM: JÁ, AHAM. EU ENTENDO.
RORY: UFA! QUE BOM, TCHAU
HOMEM: NÃO, CALMA! ISSO FOI MUITO INESPERADO EU NÃO COSTUMO FICAR ASSIM, VOCÊ REALMENTE..
RORY: OLHA, EU REALMENTE, SÓ QUERIA PULAR EM VOCÊ. AGORA DÁ LICENÇA.
HOMEM: EI! SEU NOME, PELO MENOS.
RORY: COMO SE ISSO TIVESSE ALGUMA IMPORTÂNCIA. RORY. SIGNIFICA CABELOS VERMELHOS. E EU NEM SOU RUIVA.

Pausa. Saem cada um para um lado.