fragmentos do trabalho de João Castilho
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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Compondo Rory.

     - Permanecer nas escadas, cantar ou realizar pregações religiosas, danificar ou sujar as embarcações, viajar com animais ou com trajes de banho. ( acende um cigarro e sorri)

*coreografia "o sorriso de Rory"

    -  (dando-se conta) Ah...eu tenho que contar, né? Todo mundo chegou aqui e contou. Tripulação...oito, capacidade por passageiro.... dois mil, sentados são mil e trinta e cinco, em pé novecentos e sessenta e cinco.  Dois mil e oito coletes salva vidas, duzentos de criança. Seis bóias, aparelhos flutuantes....doze , ALI! 1,2,3 ali,ali,ali 4...5. 5 olhares que se multiplicam dessa posição. 6, ALI,ALI. Sete, eu não posso perder nenhum. 8,9 aquele que olha mas finge que não olha. DEZ, DEZ(confunde as palavras e as ordens) desculpa. (cai e ri) eu espio pra fingir que eu não olho. 11, 12,13 (cai e ri) ali, 14,15 ali, desculpa, deixei cair meu pensamento. (gira e repete as informações de forma desconexa até tomar consciência de si)

-   Ihh...A gente nem se conhece. Desculpa. Ai, que exposição desnecessária.... A gente nem se conhece...Eu juro que eu vou sumir, eu juro. Desculpa ,que foi que eu fiz... viver é tao constrangedor e tudo que a gente menos quer dizer fica estampado entre a perna empapada e o azul. Eu nem fumo na verdade. (apaga o cigarro sem graça

* coreografia livro. (até explodir e pegar a maça)

- Eu tenho uma coisa pra falar. Ei! Eu preciso dizer uma coisa que eu comecei a pensar nos últimos minutos. (comendo a maça) Tudo que eu não sei falar inclui esse entre. Eu não sei o que eu estou fazendo aqui se eu odeio esse lugar.  Fico pensando nessas coisas. Ai  uso o esbarrão para tentar quebrar algo que não sei como se fabrica mas as desculpas me atropelam anulando o ato. Eu queria aprender a não pedir desculpas mas essa coisa premeditada  da alegria é muito decadente... Tem um homem aqui, o francês, ele é muito espaçoso e usa uns sapatos enormes. A mulher dele, coitada, é obrigada a lavar todos os dias as barcas ouvindo desaforos diários. Ela consegue ser mais irritante quando esta bem-humorada. O nome dela é Inês porque perdeu toda a cor no mar. Ela era ruiva e deixa tudo , ate a morte , com cheiro de maça verde. Ai todo mundo se banca, se esbarra, se bica, se beija, sinteco. E isso porque são 40 delas soltas pela cidade, 40 delas enquadradas no metro, 40 delas dando bom dias na padaria e quarenta aqui, se esbarrando. Mas de quem eu tenho mais pena mesmo é da pequenininha....tadinha.

- Não vale o que imaginamos e muito menos sorrir desse jeito pra cobrir o silencio que sempre fica e por isso sejamos concretos, ó  bancos, cimento, ferrugem. bolsa, cigarro, veja multi uso maça verde, sapato. O azul se espalha pela barca impossibilitando a busca por outras distrações e todo mundo prefere ficar de olho no meu... Ai eu espio. Eu espio porque é culpa dele. Do azul.

- Eu estava chorando porque era mais fácil do que rir, mas não traria diferença era só agua da baia com derramamento de óleo. Eu estava parada, de olhos fechados, tentando me equilibrar e ouvi uma baleia passando. Nem tao fria que parecesse cínica, nem tao perto para ficar cega. Eu fiquei ali, esperando que a baleia me engolisse, no auge da sua crueldade, ela foi embora e me deixou vivendo. Eu só lembro do barulho do meu estomago. 











domingo, 24 de março de 2013

Um giro na quase-queda

     De repente é exatamente a exatidão das coisas que geram o desequilíbrio. É essa tentativa  ridícula da recomposição no espaço concreto que faz a barca andar. A solidão de passos desorientados é o seu combustível. 40 delas procuram seus eixos, quatro disputam um mesmo lugar, duas pensam na probabilidade de se esbarrarem novamente e apenas uma conversa com a morte dentro do próprio umbigo.
       1,2,3... Todos. Todos contam como foram engolidos pelo entre e gaguejam pela própria incapacidade de se fazer desentender. A saída não é mais almejada. A solidão sim, porque ela faz barulho. O barulho torna-se companhia. É absurda a capacidade do universo em  tornar tudo cíclico. O processo de espiral prevalece entre nós, entre 40 delas que riem da instabilidade para disfarçar a dor da quase-queda. É compreensível a decisão do tombo. Para manter o equilíbrio é preciso suportar o instável. A queda torna-se alívio e a chegada veste-se de fim. O ciclo sempre continuará trazendo o vazio de um roda-roda sem crianças, girado  pela força do vento. É apenas o barulho gerado pela ferrugem  o responsável pela prova de sua existência.

terça-feira, 12 de março de 2013

coisa/ negócio/ objeto

Inês (para homem com colete salva-vidas) - Hoje tá balançando né? Onde você arranjou isso?
Ele - Eu sempre trago, não tem pra todo mundo.
Ana - Algum de vocês viu um flanelinha laranja? (percebe o colete) Porque o senhor tá vestindo esse negócio? (verifica o colete) Esse colete é da barca, sim.
Inês - Ah esse colete é da barca? Eu quero um.

domingo, 3 de março de 2013

valsa



"O Arcano Menor 11 de Arco Íris - Aventura - Existe perigo por trás de todas as experiências da vida"

Nasceu sabendo do breu em que caminhava. Teimava em não pedir ajuda.
Era pra manter o coração pulsando vivo, as veias vivas, os pés...
Dentre tantos, esse foi só mais um passo que não escolheu dar. Achou parar duro demais.
Cambaleava torta na sua escuridão.
Sua Sorte foi ser abraçada pelo Abismo.

De onde vem isso que nos faz dar um passo depois do outro? Um passo depois do outro isso me veio, acho que foi nas Barcas se não me falha a ruína. O Mar  a minha frente, dançando, e eu pensando: como parar? Como negar o movimento dos pés? Esse parar é sério demais, pensei. Aí continuei, e foi só..

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

o negócio


Victor – Um ponto cinza, dentro de um buraco branco, no canto da copa. O buraco, o buraco branco é causado provavelmente por  infiltração, e o buraco cinza tá bem centralizado dentro desse buraco branco, minto, o buraco causado pela infiltração é cinza e deixou de ser branco porque o gesso caiu, então e o gesso cai o que fica é o reboco que é cinza. Então: o buraco branco dentro de um buraco cinza causado por infiltração no canto da copa. (Entra Fe em direção ao canto da copa, Victor observa.) Um buraco branco, minto, cinza, causado pela distância entre o buraco branco e o canto da copa (Ana assume o canto da copa). O buraco cinza encosta no canto da copa (Fe encosta em Ana).
Ana – Oi?
Victor – O canto da copa fala.
(Fe tenta se explicar)
Ana – Tá. Mas não dá, tá?
Fe – Não, porquê..
Ana – Esse tipo de brincadeira não dá.
Fe – Não é brincadeira.
Ana – Brincadeira destrutiva em espaço público não dá.
Victor – O canto da copa se irrita com a destruição do ponto cinza.
Fe – Eu tava calculando o espaço que eu deveria, para alcançar...
Victor – O ponto cinza tenta conciliação.
Ana – Mas então, já deu.
Victor – O canto da copa se mantém firme.
Fe – Porquê? (Fe continua falando tentando se explicar, engolida pela Ana e Victor)
Ana – Não. Só isso. Tudo bem, cara, não fica estressada. Só não dá pra quebrar a parada.
Victor – Conflito entre canto da copa e ponto cinza.
Fe (confusa ou dissimulada) - ... tu viu onde?... é...
Ana – Eu vi o que?
Fe – Tu viu o que eu ia estragar? Eu não ia estragar.
Ana – Clara que ia cara, o negócio é super delicado, super fino...
Fe (exaltada) – Tudo bem!
Ana (exaltada) – Tudo bem o que?
(Elisa entra e pula nas costas da Fe que grita)
Victor – ponto cinza é surpreendentemente atingido por maça.
Ana – Oi flor.
Victor – Maça abraça canto da copa.
Ana (pra Elisa) – Ainda bem que você chegou. Tava tenso o ambiente.
Fe (exaltada) – Ah, tava tenso o ambiente!
Victor (sendo beijado pela Elisa) – Maça do amor.
Fe (pra Ana) – Não dá pra tocar nas coisas aqui, é isso?
Ana – Dá pra tocar, o que acontece: você tá puxando aqui...
Fe – Eu sei o que acontece...
Ana – Fui eu que botei o negócio que tá ali. Esses canos todos aí, eu ajudei a botar.
Fe – Que canos? Nada a ver!
Victor – Canto da copa e ponto cinza partem para a mão.
(Fe e Ana continuam discutindo mais próximas)
Victor – Fixa de gaza entre canto da copa e ponto cinza.
Ana (pro Victor) – Fixa de gaza não. Calma aí cara.
Victor – Canto da copa se interpõe a descrição.
Ana (pro Victor) – Cara olha só, eu to muito tranquila, eu to tipo rindo.
Fe – Tá tranquila porquê tu fica estressando os outros, sabe que isso é péssimo né?
Victor – Maça do amor.
Ana – Vamos fazer o seguinte, eu vou ficar aqui na janelinha...
Victor – Maça do amor.
Ana - ...você quebra essa merda, e depois não vem falar nada comigo não.
Victor – Maça do amor.
Elisa – Nossa que baixo astral, gente.
Fe (exaltada) – Claro, porquê é uma coisa que eu tava fazendo e tu vem aqui e interfere. Tudo bem, a gente vai ficar horas discutindo uma coisa que não tem nada a ver.
Ana – Não vai ficar horas discutindo, se você parasse pra ouvir. Eu vi que você realmente ia quebrar o negócio e não tinha necessidade...
Fe -  Mas da onde eu ia quebrar?
(Ana ri)
Fe - ...eu não tava puxando. Ela só ri.
Ana – Você tá ai falando no meu ouvido, uma coisa que eu só fiz uma crítica básica.
Fe – Tu nem esbarrou em mim, pra começar.
Ana – Você não consegue nem perceber isso que eu fiz..
Fe – Ah! Odeio isso.
(Elisa e Victor assistem como plateia. Fim.)

Maça do amor



 ( Sistema esbarrão 4:
- A entra observa o espaço e começa a materializar o detalhe descrito no blog de alguma forma.
- B entra e cria uma trajetória no espaço que repete seguidas vezes.
- A começa a pensar na relação do detalhe descrito com o que acontece na cena, em qualquer medida.
- C entra, observa a trajetória e cria um impedimento, esbarra em B (A para de descrever/ narrar) - diálogo superficial entre B e C.
- D entra, cumprimenta todos.
- B finaliza a cena com um acerto de contas fora do tempo em resposta ao esbarrão de C. Termina com uma reviravolta. )

- Descrição Victor - todo seu desenvolvimento e relação com a cena
- Analu séria e autoritária.
- Fe ofendida ("Ah, tava tenso o ambiente!")
- Atrito Fe e Ana.
- Cumprimento e chegada da Elisa (pulo nos costas da Fe/ maça do amor)
- Interscções entre discução e descrição (faixa de gaza)
- Imagem final: Victor e Elisa assistindo a cena.

Mecanismos do giro



- esse é principalmente pra Fe, e um pouco pra Ana. Foi gravado no segundo dia de ensaio, muito primário e genuíno. É ótimo perceber o corpo de vocês começando a escolher um caminho de exposição.
- um manual de instruções pro seu corpo Fe.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Tá bom, eu fecho a porta!



- Diálogo da mulher no metrô, Fe e Victor
- Elisa angustiada, acelerando o tempo das coisas
- Ana, Fe e Victor, ótimos suportes de cena para a Elisa
- Relação de apoios dos corpos, Elisa e Fe
- Quedas da Elisa no chão, impulsionadas pela Fe
- Fofoquinha que se transforma em narração/ descrição complementar, Ana e Victor - 2 narradores
- Imagem: triângulo equilátero Ana, Victor e Fe. Elisa em baixo, séria e descabelada
- Risada da Fe - tentativa de se incluir na conversinha
- Exclusão da Elisa. Opressão da Ana, Victor e Fe.
- Relação de apoios que se repete, Elisa e Fe - irmãs siamesas

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Tá ouvindo essa música tocando?



- Fe: giros seguidos, com deslocamento em reta, cabeça pro lado.
- Elisa: giro com os dedos e mãos, e todas suas variações (esticado e curvo)
- Gestual acelerado da Fe.
- Imagem final.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Só de azul.


Não. Definitivamente não vale o que imaginamos e nem sorrir desse jeito pra cobrir o silêncio que sempre fica. É sempre assim: O azul se espalha pela sala impossibilitando a busca por distrações em outras cores. Eu e o azul. Se ao menos houvesse vitrais nessa janela os olhares poderiam se desviar de vez em quando e daria tempo para disfarçar a ansiedade de se suprir algo de que já não lembro mais  se existe. Aí os pés se movem numa ansiedade verdadeiramente planejada para disfarçar a espontaneidade falsa. Ainda existe muito azul para pouco eu. Dou uma espiada. Espiadela de nada. Juro. Um, dois, três pares de olhos que se multiplicam quando olhados dessa posição. O corpo reage com um sorriso tímido que começa bem pequenino e logo se espalha pelo rosto inteiro engolindo algumas das muitas sardas. Tenho a impressão de que as palavras que menos queremos demonstrar são as que sempre ficam extremamente estampadas. Talvez tudo isso seja culpa do azul e por isso que vou começar a contar por ele. Não vale porque não é concreto, entendem? Temos que ser concretos porque se não vira bagunça com facilidade.  Eu tenho que contar né? É que todo mundo chegou aqui e contou. Eu vou contar as tomadas, depois os tacos do chão. Aí eu vou contar os livros. Depois os canos… depois eu conto os dedos e as sacolas plásticas...não....do início porque tem a história das persianas e da rinite... Também tem um caso curioso... como era mesmo? Havia algo parecido com barcas e sangue...não...Acho que sonhei.... ou foi uma piada. Os pés voltam a bater com força. A perna aberta e empapada reforça ainda mais o que eu não queria dizer. Se mais alguém aparecesse eu iria me jogar  e dizer:
      - Agora tá com você!
Não dá. Afinal, sou uma mulher e se um corpo for encontrado....assim..não...eee...ah,não sei explicar. Deixa pra lá. Acho melhor não. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

sistema esbarrão 3B



sistema esbarrão 3B from Bernardo Lorga on Vimeo.

- "Vale só o que você está vendo, ou o que está imaginando também?
- Corpos da Fe e do Victor pós esbarrão.
- Inserções da Ana no diálogo Fe/Victor (Um lugar que você já vem descobrindo em Ucrânia que é ótimo de trazer de vez em quando).
- Victor seduzindo o jogo a seu favor o tempo todo, com uma certa canastrice e um sentimento de protagonismo infantil (maravilhoso!). À vontade.
- Ótimo acerto de contas fora do tempo da Fe. Uma reviravolta: no início meio confusa e assustada com o jogo do Victor, depois estratégica e maliciosa.
- Relação de intimidade entre Victor e Ana.
- Ana bruta, segura, ganhando vantagem do Victor na força física.
- Supremacia das mulheres.
- Ana retomar a barca como violência (um assunto fantasma que paira como a figura do Victor).
- Fe vaidosa.

posição de cachorrinho


(Analu conta os segundos de forma cronológica, apesar de se distrair às vezes. Victor esbarra na Fernandinha por baixo)
Fe- Ai! Como assim?!
(se olham)
Fe- Oi?! Tudo bem? Tudo bem? Tá?! (Dá um tapa na cara de Victor e sorri) Hein?!
(Victor deita no chão com as pernas suspensas e as mãos tapando o rosto: posição de cachorrinho. Analu para de contar por segundos)
Fe (para Analu) - Espera só um pouquinho? Aconteceu alguma coisa aqui com ele. Olha.
(Analu ri e continua contando. Fe faz cafuné na cabeça do Victor)
Fe (ronronando) - Ei! Psiu! Psiu!
(Victor dá um susto. Fe pula pra trás)
Fe - Ahh! Ará-rá-rá!
Analu (para Fernandinha) - Te pegou hein!
Victor (abraçando a fernandinha e rindo) - Tudo bem? Desculpa, a gente mal se conhece não é?!
Fe (esquiva) - Porque você chegou assim desse jeito por baixo?
Victor - Eu gosto de chegar assim inesperado (gira Fernandinha pro lado). Causa mais surpresa.
Fe - Ai.
(Victor vai em direção à Fernandinha)
Fe (se fazendo de vítima) Não...
(Analu e Victor gargalhando)
Victor- Você tá com medo?
Fe- É porquê tu chegou em mim...(confusa)
Victor - Ué, a gente mal se conhece.
(Fe e Victor num jogo de empurra e se aproxima)
Fe- Você vai... Você tá... Eu que tenho que. Eu que tinha que...
Victor: Qual seu nome?
Fe- Eu?
Analu- 22.
Fe- 22...
Victor- 22? (aponta para Fe)
Fe- Porque você tá apontando esse dedo pra mim assim? Porquê? O quê? (se aproxima da Analu) Olha pode me dar...
(Victor provoca Analu)
Fe (para Ana)- deculpa? A gente não se conhece...
Analu- Não.
Fe - Não.. Mas olha só, a gente está dividindo o mesmo espaço e ele (aponta para o Victor implicante) e essa pessoa chegou ali..
(Victor provoca Ana)
Ana (entre a contagem)- Ihh...
Fe- Viu? Vai sobrar pra ti.
(Ana encara Victor)
Victor (eufórico de diversão)- Ela tá te manipulando, você não tá percebendo?
(Ana imobiliza o Victor pelo cabelo)
Fe- Segura, segura...
Analu- Fala pra ela que você adora ela! Fala!
Victor- Eu adoro você!
Analu- ... Foi um prazer te encontrar na barca! Fala! Eu vim de barca nova!
Fe- Fala!
Victor- Eu vim de barca nova e foi um prazer te encontrar!
Fe- Agora ajoelha! Isso! fala! fala.
Victor- Foi um prazer te encontrar na barca nova.
(Analu volta a contar)
Fe- Que mais? hum? que mais?
Victor- Você fica ótima de listra. Você fica ótima de listra.
Fe (vaidosa)- Que mais?
Victor- Seus dentes são lindos. Seus dentes são lindos.
Fe (se aproxima do rosto do Victor e fala baixinho)- Fala!
Victor- Eu adoro seu sotaque. Eu adoro seu sotaque.
Analu (para a Fe)- Eu acho que já deu. O que você acha?
Fe- Não, não deu ainda.
Analu- Não?
(Fe balança a cabeça e o corpo do Victor em direção ao chão)
Fe- Olha só, o que você tem que falar, e tem que ter uma explicação muito boa, é porque que tu chegou assim por baixo, ali! E porque tu fechou o olhinho depois, e porque tu ficou naquela posição de cachorrinho, e depois me deu um abraço, e tu nem me conhece! (bica o Victor) Hein?!



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Desconhecídos. ensaio 2 - 20/11/12

- um jeito despojado da Ana que vem se repetindo.
- a risada constrangida da Elisa (mãos puxando para baixo o short, e o corpo todo respondendo).
- a presença testemunha do Victor.
- uma atmosfera da cena criada com esses três elementos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

This Is It.

X começou a cantar e dançar aos cinco.
Aos onze já era profissional junto com seus irmãos.
Em 1971 quis ser sozinho.
Vendeu muito. Ficou Rico. Teve Vitiligo. Era preto e embranqueceu. Andou pra trás.
Por vaidade preferiu ficar todo branco.
"Ele tem testículos marcados por manchas rosas e marrons, como uma vaca" disse D que aos 13 diz ter sido abusado por X.
X ainda é citado como o maior ícone negro de todos os tempos.
Com quase cinquenta resolve por seu filho na janela.
Morre aos cinquenta  sem saber ao certo se foi rico,ícone,branco, preto ou vaca, por intoxicação aguda de anestésico propofol após uma parada cardíaca.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Na época, isso foi agora! E ainda hoje parece nunca ter sido.

2 de abril de 2010

Nas vezes em que não me sou, devo ser ela. Cheguei numa fase de enjoo e desgosto. Que nojo o cheiro doce industrializado das mesmas vozes. Com quantos telefonemas não atendidos se constrói a distância? Estou acostumada a deixar meus amigos para trás. Mas sempre tendo em vista outra coisa. Desta vez estou sozinha, sem ponto de fuga e sem vontade. X viaja em duas semanas para passar 3 meses no Canadá. Y deve se mudar em um mês para a Europa. Queria que eles fossem amanhã. Daqui a pouco eles me esquecem. É só eu continuar não existindo. É isso que tenho feito, aliás. Não existido.

ela

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Posso te pedir um favor?


Caro primo José,
Sei que há muito não nos falamos, acho que a última vez que nos vimos éramos ainda crianças. Acho que eu deveria ter uns doze anos e você no máximo dez. Consegui seu endereço com a tia Norma. Fiquei feliz ao saber que você conseguiu vencer na vida e que até conquistou seu próprio apartamento aí na cidade grande, como costumávamos dizer.

Soube também que você tem um cargo importante em uma grande empresa multinacional e que ainda por cima encontrou a metade da sua laranja, soube que você se casou. O mais curioso é que escrevo esta carta para um homem bem sucedido, mas quando penso em você vejo aquele menino de dez anos, para mim, na minha mente, não consigo imaginá-lo com seus quase quarenta anos. Quando em penso em você surge aquele menino com o rosto coberto de sardas e calças curtas, sempre suado de tanto que brincávamos e corríamos naquele campinho.

É engraçada essa imagem que formo desse menino vendendo veículos e morando em seu apartamento da cidade grande, todo suado e vestindo um short curtinho. A vida é tão inefável, não é mesmo? É tão imprevisível.

Me lembro que quando crianças costumávamos nos perguntar: O que você vai ser quando crescer?
Engenheiro eletrônico você dizia. Será que você se recorda qual era minha resposta? Astronauta é o que eu dizia que viria a ser. Como é obvio, não sou. Não serei. Tornei-me palhaço. Melhor dizendo a vida me tornou palhaço. Na verdade quando entrei para o circo eu almejava ser trapezista ou quem sabe um artista do escapismo. Mas a natureza não me ajudou, não tenho estrutura física para o trapézio e embora tenha muito fôlego me falta o charme que se tem que ter para um artista escapista. Sou capaz de ficar cinco minutos com a cabeça submersa na água, se você quiser quando nos encontrarmos posso fazer uma demonstração para você. Pode ser até mesmo em um balde cheio de água. Mas. enfim, eles precisavam de um palhaço.

Mas estou me delongando por demais. O motivo dessa carta, um tanto saudosa, é pedir-lhe um favor. O circo acabou, faliu, e eu não tenho para onde ir. Estou em Campinas e permanecerei aqui até o fim deste mês, mas depois pretendo ir a São Paulo em busca de algum trabalho e não tenho onde ficar. Este é o favor que te peço, que dê abrigo para mim e para minha esposa.

Estou casado a poucos meses, me casei com a mulher invisível. Ela também era do circo. Peço abrigo por pouco tempo só até um de nós conseguir um sustento para podermos pagar um aluguel. 

Eu não sei o que será da minha vida, será que alguém sabe?

Olga, minha mulher, tem um dom, ela olha para qualquer pessoa e sabe como essa pessoa vai morrer. Mas apesar disso nem ela sabe o que será de sua vida. A propósito, eu morrerei de câncer de intestino, e ela de câncer de estômago. Nascemos um para o outro.

Fico por aqui, se acaso em nome dos bons tempos ou de seu generoso coração, puder me hospedar ligue-me nesse telefone. 0xx19-3213 1234.

É um telefone de recados.

Caro primo, me desculpe o tom saudoso e depressivo desta carta. Vivo um momento de grande angústia, estou muito assustado, quase sem esperanças. Te confesso isso pois quero poupar minha querida esposa, não quero que ela perceba a angústia que amargo. Eu quera ter fé, ou até mesmo um sonho. Eu queria olhar pro futuro e ver algo melhor do que um presente piorado. Queria olhar o presente e não sentir vergonha de mim. Tudo o que desejei se materializou em fracasso. Gostaria de te encontrar apenas para podermos correr naquele velho campinho. Sem preocupações, grandes ou pequenas.

Eu só queria correr, correr, correr...

Muito obrigado.
Saudade,
                                                                                                                do seu primo Boris.

P.S. O que você foi quando era criança?

(Prólogo da peça "O que você foi quando era criança?, Lourenço Mutarelli)