fragmentos do trabalho de João Castilho
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domingo, 24 de março de 2013

Um giro na quase-queda

     De repente é exatamente a exatidão das coisas que geram o desequilíbrio. É essa tentativa  ridícula da recomposição no espaço concreto que faz a barca andar. A solidão de passos desorientados é o seu combustível. 40 delas procuram seus eixos, quatro disputam um mesmo lugar, duas pensam na probabilidade de se esbarrarem novamente e apenas uma conversa com a morte dentro do próprio umbigo.
       1,2,3... Todos. Todos contam como foram engolidos pelo entre e gaguejam pela própria incapacidade de se fazer desentender. A saída não é mais almejada. A solidão sim, porque ela faz barulho. O barulho torna-se companhia. É absurda a capacidade do universo em  tornar tudo cíclico. O processo de espiral prevalece entre nós, entre 40 delas que riem da instabilidade para disfarçar a dor da quase-queda. É compreensível a decisão do tombo. Para manter o equilíbrio é preciso suportar o instável. A queda torna-se alívio e a chegada veste-se de fim. O ciclo sempre continuará trazendo o vazio de um roda-roda sem crianças, girado  pela força do vento. É apenas o barulho gerado pela ferrugem  o responsável pela prova de sua existência.

sábado, 23 de março de 2013

Foi tudo predeterminado pela probabilidade matemática

para o Victor.

A proporção era sempre a mesma, 1 para 1.618 repetidamente. Padrões se escondem bem debaixo dos nossos olhos, só é precisa saber onde procurar. Coisas que a maioria das pessoas veem como caos, na verdade seguem sutis leis de comportamento. Galáxias, plantas, conchas marinhas, os padrões nunca mentem. Mas só alguns de nós conseguem ver como as peças se encaixam. 7 bilhões, 80 milhões e 360 mil de nós vivem neste pequeno planeta. Esta é a história de algumas dessas pessoas. Há um antigo mito chinês sobre o Fio Vermelho do Destino. Diz que os deuses prendem um fio vermelho no tornozelo de cada um de nós e o conectam a todas as pessoas, cujas vidas estamos destinados a tocar. Esse fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir. Foi tudo predeterminado pela probabilidade matemática. E é meu trabalho ficar de olho nesses números. Fazer as conexões para aqueles que precisam se encontrar. Aqueles cujas vidas precisam se tocar. Eu nasci há 4.161 dias. Em 26 de outubro de 2000. 11 anos, 4 meses, 21 dias e 14 horas. E durante todo esse tempo... Eu nunca disse uma única palavra.

Hoje, enviaremos 300 bilhões de emails, 19 bilhões de mensagens de texto. Uma pessoa comum dirá 2.250 palavras para 7,4 bilhões de pessoas. E, ainda sim, nos sentiremos sós.

(Fragmento extraído do seriado "Touch")




sexta-feira, 8 de março de 2013

Arquitetura




Madeira e ferro suspensos por água.
Chão de cimento apesar de instável.
Como é andar na barca?
É como pular na cama elástica e depois andar.

Objetos:
- jornal/ revista
- lixeira
- extintor
-ventilador com água saindo (sala de espera)
- bolsas de topo tipo (até malinhas de rodinha)
- televisões informativas
- prendedores de cabelo de todo tipo (Inês escolher um)
- muitos coletes salva-vidas
- uma bandeira do Brasil toda fudida
- luminária antiga em formato de lampião
- grades brancas
- cigarro
- correntes enormes
- bancos de madeira pintados parte deles de azul, e outra parte (minoria para os incapacitados) de laranja.
- bebedouro  COM DEFEITO
- uma corda muito grossa
- aparelhos de música diversos
- autofalantes pequenos
- escadas
- faixas de atenção desenhadas no chão 

Cores:
Branco (tinta)/ cinza (ferro)/ vermelho (ferrugem, extintores, alguns detalhes)/ preto (tinta,  faixa de atenção, detalhes)/ azul (tinta, cadeiras, datelhes)/ amarelo (faixa  de atenção)/ laranja (cadeiras  especiais)

Imagens:
·         distante:  mar com purpurinas de luz causadas pelo sol batendo na água X próximo: mar negro, avermelhado
                           Brilhoso X Negro – efeitos de iluminação
·         imagem da terra se afastando, a cidade virando paisagem – estruturas grandes ficando pequenas.
·         a dispersão do dia a dia nas roupas – coloridas e com caráter heterogêneo (figurinos muito realistas com uma teatralidade muito específica e individual)
·         redemoinhos no mar causados pela espuma e turbina da barca.
·         Fe com um cigarrinho de palha, muito blaze contemplando a paisagem, e o velhinho do lado.
·         Elisa com ar de perdida – pessoas do lado pensando: ou é uma criança perdida, ou é um pouco louca (uma velhinha chegou a esconder a bolsa, depois de Rory pular de banco em banco e passar por ela sem nem olhar). Muito distraída.
·         Victor com bolsa + máquina + óculos (pode ser pego da Inês). Bem turista à vontade.
·         Ana escondida, vestindo um colete salva vidas tirando fotos de si mesma.
·         Uma mulher com uma saia muito leve, comprida que lambe o espaço com o vento.
·         Espuma da barca (turbina) X espuma do extintor
·         Pessoas fazendo fila pra sair X tentando passar ao mesmo tempo.

domingo, 3 de março de 2013

Expectativas depositadas em objetos aleatórios

A cena e os espectros: melancolia, luto e fantasmas.

A Melancolia aparece como figura iconológica na medicina, filosofia, artes, literatura, e astrologia    articulando história e poética, cada qual com suas diferenças.


Século XX
“Luto e Melancolia” Freud - 1917
A Psicanálise relativiza o diagnóstigo assim como a Melancolia ocila entre contrários e não possui validade universal. Na psicanálise o sintoma está no discurso não no conteúdo. Agora é desde sempre. Freud procura entender no texto as diferenças e semelhaças do luto com a melancolia.

O luto consiste em um trabalho de superação da perda de um objeto de amor, desejo. Depois de imensa atividade psiquica o sujeito pode deslocar a sua libido para outro objeto de amor, se desligar do objeto perdido. O luto não é natural, é um trabalho cujo sucesso não é garantigo. “O luto poe o mundo em movimento” Agamben.

O melancólico muitas vezes não sabe o que foi perdido. A melancolia é uma patologia do luto, um luto fracassado. O sujeito se indentifica com o objeto perdido e a perda caí dentro. Caráter de auto-acusação, lamentos, queixas sobre si próprio. Ao mesmo tempo que se identifica com o objeto, então o investimento libidinal também caí dentro produzindo uma regressão narcísica e uma cizão do eu. Amar o objeto que cai em si e odiar a parte que ama. Um duelo interno que às vezes, na tentativa de matar o objeto introjetado, mata a sí próprio.
“A sombra do objeto cai no ego” Freud
A melancolia se apresenta para Freud de forma enigmática e paradoxal. A posse de uma perda se traduz na tentativa de se apropriar do inapreensível. Tomar posse de um impedimento, de uma impossibilidade  Realizar a fantasia, não o real. O melancólico contempla os próprio fantasmas e lida com o impossível como um fracasso.

Ambivalência. O obejto perdido é ao mesmo tempo:
PERDIDO  x  APROPRIADO

O melancólico se queixa, precisa se comunicar, se auto desnudar e também dissimular. Há uma dimensão auto-crítica na queixa do melancólico, no pensar sobre seu pensamento e ao produzir a fala.

Agamben pensa que a operação artística no viés da melancolia se apropria do inapreensível, torna a realidade impossível, perde a realidade no momento que dá forma a ela.

Ambivalências:
Aristóteles - atividade intelectual imaginativa intensa (exaltação do pensamento)

- torpor físico, imobilidade (abatimento do corpo)
Medieval - Acedia (inércia): Demônio do Meio Dia. O sol está maior, mas coberto por uma
sombra. Tensão de contrários: Sol Negro
Barroco - Saturno: demónio das antíteses: gere e engole seus filhos
- Pascal: "A grandeza do homem é grande  naquilo em que ele se conhece
miserável"
Freud - ambivalência: amor e ódio. O amor pelo objeto perdido é imenso. partição em dois:
amar o objeto que cai em si e odiar a parte que o ama

(Resumo da matéria ATAT - Ângela Materno)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

ruína diária


4 atores - 4 personagens (Inês; Rory; Ana; Ele)
um espaço em comum - a barca 
encontros e reencontros dessas mesmas pessoas caracterizam a ficção 
a percepção do outro é duvidosa e sedutora. 
há quanto tempo divido esse espaço com essas mesmas pessoas? 
será que são as mesmas?
no meio da dispersão do cotidiano metropolitano o encontro, acaso ou coincidência, necessita de um sentido individual e próprio
o individuo entra num processo de espiral na tentativa de entrar no próprio umbigo 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Um esbarrão pra acordar.


-  Como você tem coragem de acordar só agora? Lá fora o mundo  explode desde cedo e você aí com esse pijama ridículo do pato Donald. Qual a sua idade? Eu nem preciso saber exatamente para perceber que Pato Donald não dá mais.  Você foi a Disney não foi? Tanto lugar pra escolher e foi logo dançar e cantar com o próprio capitalismo em pessoa! Sabe a porcentagem de analfabetos em nosso país? Isso sem contar com os funcionais e nem adianta me olhar com essa cara e esse  iogurte diet cheio de Aspartame. Sua mãe tentou te ligar sete vezes para te perguntar sobre o natal, mesmo estando em setembro já é preciso pensar em todas aquelas pessoas desconhecidas que temos que nos encontrar pelo menos uma vez ao ano. Aliás o que iremos dizer ao Télio? A filha dele, aquela gordinha que é sua prima ou sobrinha  está com câncer de mama. A culpa foi do Aspartame. O aluguel vence hoje e precisamos  estar as duas em ponto no chá de bebê da Jude. A menina com dezessete anos já engravidou, o outro que mora ao lado já está formado e já empregado aos vinte, tem futuro promissor, aquela lá se apaixonou, casou e terminou tudo isso aos dezenove e você com o Donald e o Câncer. Não que eu queira que engravide agora, mas o tempo está passando e a gente tem essa terrível mania de ir existindo ... um dia acaba. E como quer acabar? Comendo Iogurte que não. O porteiro mandou avisar que precisaremos concertar nossa área com urgência, estamos causando problemas pro vizinho, e por falar nele, se ver um gato preto de manchas brancas por aí é dele. Se perdeu, coitado. Um animal tão pequeno nessa cidade toda não dura muito. A ponte está toda parada. Morreram dois jovens e uma grávida em um acidente. Três mortos e oito feridos. Na verdade foram quatro mortos , porque a grávida... Que horror.  Sabe que horas são? E o seu cachorro preso em casa. Tem almoço na geladeira e é só esquentar no micro-ondas mas não se esqueça de ligar no transformador porque aqui tudo é 120. Micro-ondas mudou, não mudou?  Eu estou me referindo ao acordo ortográfico. Aliás, me responde a uma pergunta: Tudo o que dizemos e escrevemos é apenas um acordo? De quem? Pra quem? E se eu não quiser cumprir ele? Existe multa para quem não acentua as ideias adequadamente?  Quando eu souber para onde vão os ideais inadequados  tudo será resolvido. E quando VOCÊ vai resolver  resolver tudo? Não.  Eu não gaguejei ,os resolveres foram colocados propositalmente com objetivos diferentes. Preste mais a atenção.  Já perdi muito tempo e vou me atrasar para...para...vou me atrasar para  o meu tempo livre e olha que tem muita gente que não tem mais isso.Absurdo,  né?  Isso tudo. Existem pessoas que não tem mais um minuto de descanso e você aí com essa cara amassada.  Cara de pau...devia ter vergonha. E vê se chega cedo, não vai dar bolo outra vez hein? Ah, e por falar em bolo, parabéns. Qualquer coisa é só ligar pra esse número que o aniversário vem pronto, com bolo, vela, pedido e até convidados se quiser. E vê se tira esse Pato Donald...o que os convidados irão pensar?   Só não demora muito porque o relógio,ó, tá sempre correndo e você ,ó, iogurte,pijama, ó, câncer,a gravidez inesperada, a gravidez inesperada com morte inesperada, ó, o acordo....mas , ó , aproveita , tá? É que não é sempre que se faz anos. Ah, bom dia. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Só de azul.


Não. Definitivamente não vale o que imaginamos e nem sorrir desse jeito pra cobrir o silêncio que sempre fica. É sempre assim: O azul se espalha pela sala impossibilitando a busca por distrações em outras cores. Eu e o azul. Se ao menos houvesse vitrais nessa janela os olhares poderiam se desviar de vez em quando e daria tempo para disfarçar a ansiedade de se suprir algo de que já não lembro mais  se existe. Aí os pés se movem numa ansiedade verdadeiramente planejada para disfarçar a espontaneidade falsa. Ainda existe muito azul para pouco eu. Dou uma espiada. Espiadela de nada. Juro. Um, dois, três pares de olhos que se multiplicam quando olhados dessa posição. O corpo reage com um sorriso tímido que começa bem pequenino e logo se espalha pelo rosto inteiro engolindo algumas das muitas sardas. Tenho a impressão de que as palavras que menos queremos demonstrar são as que sempre ficam extremamente estampadas. Talvez tudo isso seja culpa do azul e por isso que vou começar a contar por ele. Não vale porque não é concreto, entendem? Temos que ser concretos porque se não vira bagunça com facilidade.  Eu tenho que contar né? É que todo mundo chegou aqui e contou. Eu vou contar as tomadas, depois os tacos do chão. Aí eu vou contar os livros. Depois os canos… depois eu conto os dedos e as sacolas plásticas...não....do início porque tem a história das persianas e da rinite... Também tem um caso curioso... como era mesmo? Havia algo parecido com barcas e sangue...não...Acho que sonhei.... ou foi uma piada. Os pés voltam a bater com força. A perna aberta e empapada reforça ainda mais o que eu não queria dizer. Se mais alguém aparecesse eu iria me jogar  e dizer:
      - Agora tá com você!
Não dá. Afinal, sou uma mulher e se um corpo for encontrado....assim..não...eee...ah,não sei explicar. Deixa pra lá. Acho melhor não. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Para Clarice:


“A literatura é desvio fora dos caminhos do logos habitual: é fuga do mundo do discurso. Com essa, escreve Bataille, se entra numa espécie de tumba onde o infinito do possível nasce ‘da morte do mundo lógico’: um espaço terrível, o único em que é possível ligar ‘intimamente a afirmação à negação’. É assim que essa cumpre ‘aquilo que geralmente é obra do “tempo” – o qual, de todas as suas construções deixa subsistir apenas os rastros da morte. Acredito que o segredo da literatura seja este. E que um livro se torna maravilhoso se habilmente ornado pela indiferença das ruínas.’ [...] Portanto, a literatura é uma saída do princípio de não contradição que domina o pensamento lógico; é a afirmação de uma contradição nos confins onde podemos colher, talvez como em toda autêntica contradição, o impensado da vida, quando esta se encontra com a morte. A arte, a literatura como a pintura, debruçam-se constantemente sobre aquilo que é invisível ao pensamento lógico, ou seja, a paixão, que Esquilo dizia ser o verdadeiro saber do mundo: o sofrimento, a alegria, o terror, o tédio e, de fato, no fundo de tudo, justamente como intuiu Bataille, as máscaras da morte.”
(RELLA, Franco – Di fronte all’indicibile)

ps: Presente do Vini, namorado da Mira.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Inês segue uma pessoa da rua.


Oi, você tem um minuto? Por favor, não me entenda mal, a gente nem se conhece, mas eu precisava falar algumas coisas que eu comecei a pensar nos últimos minutos. Talvez eu já venha pensando há algum tempo, mas como a gente só se conheceu agora, acho que posso começar a formular ou talvez eu só vá dando vazão ao que eu preciso dizer de forma que você tente arquitetar as minhas ideias como suas e de alguma forma crie uma linha que não necessariamente tenha sentido, mas que siga alguma direção ou simplesmente nos ponha em outro lugar. Escuta, fracassei na minha maior pretensão: a sua satisfação. "Sua" nesse caso é uma terceira pessoa que pode, ou não, estar aqui. Já não duvidei o suficiente da minha maturidade e da minha capacidade de lidar com as expectativas de uma vida feliz. Afinal, liberdade é prazer? Quero viver sem pensar que estou vivendo, sem metalinguagem, sem dissimular risos, não quero falar sobre o vácuo. Desculpa a pessoalidade, eu queria recitar uma poesia, mas parte do que consigo arquivar se torna rancor com o tempo. Isso é só um desabafo pro primeiro que passa na rua. O desconhecido, despreparado que não posso decepcionar. Minha cabeça funciona como uma fábrica de ideias, e para que você consiga acompanhar meu raciocínio eu preciso te explicar uma coisa: tudo pra mim é uma construção, um prédio, uma mansão, uma cobertura, um palácio, um museu, um monumento. Um monumento é uma estrutura construída por motivos comemorativos, mais do que para uma utilização de ordem funcional. Lembrar dói. Já construí em idéias, os Arcos da Lapa / Auditório Ibirapuera / Catedral de Brasília / Cristo Redentor / Elevador Lacerda / Monumento a Independência da Bahia / Estação Cantareira / Memorial da América Latina / Monumento às Bandeiras / Monumento do Ipiranga / Monumento aos Pracinhas / Monumento a Ayrton Senna / Monumento a Ramos de Azevedo  / MAC (Museu de Arte Contemporânea) / Obelisco do Ibirapuera / Oca  / Paço Imperial / Palácio da Alvorada / Palácio dos Bandeirantes / Palácio do Catete / Palácio de Cristal / Palácio dos Correios /Palácio Guanabara / Palácio das Indústrias / Palácio do Itamaraty / Palácio do Planalto / Palácio Tiradentes / Panteão Duque de Caxias / Pátio do Colégio / Ponte Estaiada / Ponte dos Jesuítas / Ponte Hercílio Luz / Ponte JK / Ponte Rio-Niterói / Quinta da Boa Vista / Torre Mercês  / Viaduto Santa Ifigênia

Será que tudo já virou ruína?

Continua fazendo o que tem para fazer, e quando arrumar tempo, pensa no que eu te disse. Pode ser nos entreatos, nas transições, não demanda muito tempo. Se você tiver qualquer conselho, escreve e deixa aqui dentro dessa bolsa com uma paisagem desenhada, ela sempre fica por aqui, é importante. Quem sabe qualquer dia eu venha ler no impulso. Se isso acontecer e você não tiver escrito nada, com certeza vou sofrer um pouquinho. Talvez algumas lágrimas de rancor. Mas também existe o risco de eu não ler, porquê esse excesso de informação me mata.

Nu dúvida, quando você arrumar tempo e terminar o que tem pra fazer me responde, ok? Tchau.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Primeira tentativa de um primeiro encontro/ Queria não me envergonhar por ter escrito isso.


(Rory se joga em cima de um homem que passa.)

Rory: Ai desculpa é que você me deu uma vontade de me jogar assim.

Homem: É... Ok.

Rory: ( levantado-se) Pronto.

Homem:(embasbacado) Nossa! Eu realmente... Não sei como reagir.  Você... Me surpreendeu. É... (ri desconcertado) Parabéns.

Rory: Não me leve a mal. É que se eu não faço, não consigo dormir depois. Fico com essa dúvida de como seria, vira uma questão pra mim. É sério. Você nunca teve isso quando deixou de fazer alguma coisa?

Homem: Já, já... Eu compreendo.

Rory: Que bom. Tchau!

Homem: Espera. É que você é a primeira pessoa a me deixar assim... Sem saber o que fazer. Eu costumo ter resposta pra...

Rory:É... Eu sou uma pessoa de muitas perguntas.

Homem: E não é só isso. É que em determinado momento da vida a gente pensa conhecer todas as possibilidades de aproximação e de repente...

Rory: A gente nunca conhece tudo. Isso é uma conclusão tão óbvia. É interessante, mas acho que já disseram há mais de 2000 anos.só sei que nada sei.

Homem: Eu sei. Quer dizer... É diferente, perceber isso numa situação como essa, tão prática, tão pequena e ao mesmo tempo... suspensa.

Rory: Olha, eu realmente só queria pular em você.

Homem: Eu sei...

Rory: Que nada sabe agora. Que bom! Me sinto útil.

Homem: É que se você soubesse a vida que eu levo você entenderia...

Rory: Mas que vida hein?! Deve ser horrível essa sensação...

Homem: Como?

Rory: De saber como se portar em qualquer situação, de conhecer todos os tipos de pessoas, tudo perde o sentido né?

Homem: Talvez por isso o seu ato...

Rory: Ai chega! Eu não quero mais teorizar sobre isso. Eu sou movida pelas minhas vontades e isso as vezes é um problema. Não precisamos criar uma relação por causa disso... Você podia ter reagido de qualquer forma. Rolando pela calçada, imitando um cachorro, me jogando pra cima, sei lá... Eu não queria pensar, refletir, só não quis conter essa vontade... Agora com licença.

Homem: Ei! O seu nome pelo menos.

Rory: Como se isso tivesse alguma importância. Rory. Significa cabelos vermelhos e eu nem sou ruiva.

Homem: Não quer saber o meu?

Rory: Não. Tchau! (sai)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Primeiro dia

 Perdoem a menina por não saber dançar
Perdoem a menina por fraquejar, por não conseguir disfarçar a vergonha e por se colocar na posição menina. A perdoem por negar improvisações, não saber o que fazer e por não ter asas na cabeça. É que ela ainda precisa de justificativas e se prende na tentativa inútil de construir o que nem ruína chegou a ser. Talvez, quem sabe, ela um dia irá entender que é preciso abandonar as roupas usadas e mergulhar...no que mesmo? Talvez naquilo que a essa altura seria como dizer se chove ou faz sol. Que bobagem menina...deixe que a mistura do mistério caia de boca no  arco íris! É o que dizem por aí.
  A menina queria sumir, achou mais razoável vomitar e acabou engolindo.
 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Na época, isso foi ontem! E ainda hoje parece ter sido.


A pouco tempo atrás, cheguei a classificar o enorme esforço feito para ir como "muito barulho por nada". Hoje, tendo acabado de sentir o chão firme de minha terra, fui obrigado a mudar minha opinião. Não pelo acontecimento como um todo mas pelas pessoas e, em especial, por você. Mais uma vez estou sendo obrigado a rever minha vida, tirando dela as histórias que tenho para contar - que gosto de contar. Na volta, conclui que você será mais uma delas. Dessas boas lembranças, que a gente gosta de ter.

Desde pequeno, meu lugar predileto é o aeroporto. Até hoje esse espaço me emociona, trazendo sensações que pouco sei ou procuro explicar. São viagens, chegadas, partidas, encontros, despedidas, muitos beijos, abraços, laços... É o poder de ir e vir que move o ser humano moderno - dono de seus caminhos e decisões. 

Pois bem, eu fui! Ou melhor, fomos. A Dóris disse que, na verdade, todos foram só para eu encontrar você. Ela acredita em destino, caminho, essas coisas que dou pouco valor. Talvez eu precise também rever esse meu posicionamento. Me lembro agora que, enquanto eu tomava banho e você me fazia companhia, perguntou se eu acredito em Deus. Acredito, eu respondi. E são por essas situações que passo a acreditar mais. Por esses encontros que são como presentes, surpresas boas, antídotos poderosos para o coração. 

Eu voltei, estou aqui, em casa: seguro, cansado, leve e pesado, feliz e saudoso. Já tenho saudade de ti. Uma vez, disse a alguém que minha vida é feita de saudade. Acho que tinha razão. Passamos tão pouco tempo um ao lado do outro que poderíamos julgar todo o ocorrido como loucura. Mas não. Se estivéssemos loucos, teríamos sido extremistas, como você mesmo disse, ou então desmedidos e por ai vai. Mas não. Soubemos respeitar o tempo e, o mais importante de tudo, nos respeitar também. 

Eu voltei. e agora sou como uma bolha prestes a explodir de alegria e prazer. Mal sabe, mas foi você a pessoa que me devolveu a crença nas coisas que sempre busquei acreditar: no amor, no romance, no encontro de almas e também na química - como você disse. Não eu não me importo com a sua idade, pois você não tem vergonha dela. Na verdade, foi a partir dela e da lovely que começamos, de fato, a travar o início de uma longa conversa. Digo longa, pois meu corpo, embora sem contato, ainda conversa com o seu. É que foi tão doce que não sei explicar nem traduzir em palavras. A minha barriga é feia, eu disse, e você nem se importou porque o grande barato do momento era saber se eu sentia cócegas ou não. Sim eu sinto. O grande barato foi, e ainda é, ver como você consegue ser enorme em uma cidade tão pequena; Ver como sua beleza se destaca; Ver sua ousadia, seus óculos - para não falar dos seus desenhos. Ah, os seus desenhos. Trouxe um cadinho deles comigo, rabiscados em uma camiseta que deixou de ser comum e jamais ficará velha. Agora ela é uma daquelas camisetas que a gente guarda para sempre, sabe? Aquele tipo de roupa que fica com o cheiro do perfume da pessoa amada. Através dos seus desenhos, lembro-me de seu rosto, olhos, beijo e nariz. Lembro-me também de sua coragem em ter dividido momentos tão importantes comigo. Lembro-me de você ali no restaurante, com as mãos grudadas nas minhas, não se importando mais com os olhares alheios. Você não me deu nenhum beijo hoje - você disse. Eu não soube o que dizer porque todo o tempo que passei sem lhe beijar o fiz em respeito a você. Resolvemos o engano. 

Naquela sala de aula, quente, no colchão tropicalista que sim, tens razão, daria um belíssimo casaco de moleton com zíper vermelho. Se um dia você o fizer saiba que será meu mais esta fabulosa peça odente. Como serão minhas também as peças que ainda vou encomendar. Agora que já tenho uma exclusiva, posso ter todas. Preciso dizer também que eu nem sabia que você adora jujuba, mas saindo do banheiro, os pacotinhos gritaram meu nome e eu, sem entender, os levei comigo. Bingo. Era jujuba o que você queria para aliviar aquela premiação para lá de tensa. É que ficou colado em mim o pedaço daquela parede, daquele cantinho, da grama daquele jardim. "Núúúúú", como você mesmo diria, expressando-se com entusiamo. É que ficaram em minha boca os sorrisos que demos, as alegrias que tivemos, o encontro marcado, que sem marcar ou pensar, realizamos. É que ficou na minha cabeça o quão especial foi tudo isso, o quão maduro e exato. 

É que saí desesperado do ônibus, correndo pelo prédio da universidade a sua procura - para lhe dar o último beijo, abraço, para olhar seus olhos, talvez, pela última vez. É que sem todas aquelas fotos eu não poderia ir embora. Nós dois ali, mais uma vez, naquela sala e eu falando sobre abstrações do momento, levando as situações para a filosofia. Você poderia ter achado um saco. Mas não. Disse que quando eu falo a imagem que vem a sua cabeça é a de vários livros se abrindo e fazendo aquele barulho do rápido passar entre páginas. Pequenino, eu não sou tão inteligente assim. Eu queria ter dito, mas não consegui. Pois a imagem que fazia de mim naquele momento foi umas das mais belas que já esboçaram. 

Sabe o que eu gosto mais em você? É que você quer ver todo mundo crescer, você também disse. Sim isso é verdade, procuro ajudar as pessoas sempre que posso. E procuro também torcer muito pelas que gosto. Mas nesses momentos, eu só tinha olhos para você e todo este entusiasmo que viu em mim, foi você quem gerou. Fui conhecer patos e me deparei com uma girafa, meu animal predileto - bonito, grande, do pescoço e corpo volumosos. Animal charmoso, presente e forte. Mais um para fazer compania a lovely, ao menino coelho e tantos outros bichos que por ai estão a andar, amar, conhecer e viver. É que realmente vivemos esses três dias de uma forma que jamais esquecerei. Agora entendo a força que não sei de onde tirei para me fazer presente nesta viagem, neste festival, neste eventopeçacoração. 

Ver você na primeira fileira do teatro foi fabuloso. Ver você me esperando lá fora. Nos ver caminhando, cantando... um brinde, eu sugeri: a nós. É que ainda preciso brindar mais. É que ainda preciso respirar, guardar você direitinho. Já colei na agenda o desejo de feliz dia das crianças; já guardei a blusa que ainda está com o peso de suas mãos; já revi as fotos e quero ver as outras; já contei a alguns e quero dizer mais. Tudo que se vive dessa forma é preciso ser narrado nos mínimos detalhes, que foram muitos. Em breve, lhe mando a foto que pediu e ,junto com ela, minha saudade e carinho.

"Quando a lua apareceu
Ninguém sonhava mais do que eu
Já era tarde
Mas a noite é uma criança distraída
Depois que eu envelhecer
Ninguém precisa mais me dizer
Como é estranho ser humano
Nessas horas de partida..."

RISCADO, Caio. Preciso escrever, preciso do meu computador: eu disse in Casa de Avenca, http://www.casadeavenca.blogspot.com.br/search?updated-min=2009-01-01T00:00:00-08:00&updated-max=2010-01-01T00:00:00-08:00&max-results=42, Rio de Janeiro: 13 de outubro de 2009.

Na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido...

Era uma meninazinha, menor do que menina, mais miúda do que menininha, quase muda a coitadinha. É que certo dia, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido, ela contava até dez em voz alta, aguda, altíssima para uma meninazinha inha que nem ela e a mãe deu-lhe um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto nas aulas de matemática. A mãe era matemática, não de ofício, de alma. Exata, numérica, regrada, difícil, calculista, escalena, reta, obtusa. Mas a meninazinha quase muda ainda era feliz. Mesmo detestando matemática podia ser o que quisesse. E brincava de ser tudo, até meninozinho. Um dia a professora viu e deu-lhe um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto com os meninos. Mas meninazinha continuava feliz, podia ser tanta coisa ainda que fosse menina o tempo todo. Um dia, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido, resolveu ser atriz. Era uma maneira de ser tudo o que queria numa vida só. Contou ao pai, levou um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto no cinema. A essa altura era a menos meninazinha das irmãs e precisou começar a trabalhar. Empregou-se numa confecção de embalagens plásticas. Doía feito tapa. Mas meninazinha podia ser tanta coisa dentro da cabeça. Um dia inventou de se apaixonar, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido. Contou a uma amiga que deu-lhe um tapa na boca. "Ele não presta" disse enquanto casava com ele na semana seguinte. Outro se apaixonou por meninazinha, quase muda, quase mulher. Disse que não queria, Outro deu-lhe um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto em casamento. Meninazinha não queria filhos, não gostava do que o mundo fazia com as crianças, após um segundo tapa de Outro engravidou. Depois ninguém sabe porque grávida chora tanto. Um dia, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido, nasceu o filho. Meninazinha quase muda, agora mãe, já não era mais feliz, mas ainda assim não conseguiu odiar aquela coisinha tão pequena, tão miúda, quase muda que nem ela. Amou o filho. Mas quando abriu o berreiro ainda no hospital tratou de dar-lhe um tapa na boca. Ontem mesmo me perguntavam: 'Que diacho de criança é essa que não chora?'

quinta-feira, 1 de novembro de 2012