fragmentos do trabalho de João Castilho
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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Compondo Rory.

     - Permanecer nas escadas, cantar ou realizar pregações religiosas, danificar ou sujar as embarcações, viajar com animais ou com trajes de banho. ( acende um cigarro e sorri)

*coreografia "o sorriso de Rory"

    -  (dando-se conta) Ah...eu tenho que contar, né? Todo mundo chegou aqui e contou. Tripulação...oito, capacidade por passageiro.... dois mil, sentados são mil e trinta e cinco, em pé novecentos e sessenta e cinco.  Dois mil e oito coletes salva vidas, duzentos de criança. Seis bóias, aparelhos flutuantes....doze , ALI! 1,2,3 ali,ali,ali 4...5. 5 olhares que se multiplicam dessa posição. 6, ALI,ALI. Sete, eu não posso perder nenhum. 8,9 aquele que olha mas finge que não olha. DEZ, DEZ(confunde as palavras e as ordens) desculpa. (cai e ri) eu espio pra fingir que eu não olho. 11, 12,13 (cai e ri) ali, 14,15 ali, desculpa, deixei cair meu pensamento. (gira e repete as informações de forma desconexa até tomar consciência de si)

-   Ihh...A gente nem se conhece. Desculpa. Ai, que exposição desnecessária.... A gente nem se conhece...Eu juro que eu vou sumir, eu juro. Desculpa ,que foi que eu fiz... viver é tao constrangedor e tudo que a gente menos quer dizer fica estampado entre a perna empapada e o azul. Eu nem fumo na verdade. (apaga o cigarro sem graça

* coreografia livro. (até explodir e pegar a maça)

- Eu tenho uma coisa pra falar. Ei! Eu preciso dizer uma coisa que eu comecei a pensar nos últimos minutos. (comendo a maça) Tudo que eu não sei falar inclui esse entre. Eu não sei o que eu estou fazendo aqui se eu odeio esse lugar.  Fico pensando nessas coisas. Ai  uso o esbarrão para tentar quebrar algo que não sei como se fabrica mas as desculpas me atropelam anulando o ato. Eu queria aprender a não pedir desculpas mas essa coisa premeditada  da alegria é muito decadente... Tem um homem aqui, o francês, ele é muito espaçoso e usa uns sapatos enormes. A mulher dele, coitada, é obrigada a lavar todos os dias as barcas ouvindo desaforos diários. Ela consegue ser mais irritante quando esta bem-humorada. O nome dela é Inês porque perdeu toda a cor no mar. Ela era ruiva e deixa tudo , ate a morte , com cheiro de maça verde. Ai todo mundo se banca, se esbarra, se bica, se beija, sinteco. E isso porque são 40 delas soltas pela cidade, 40 delas enquadradas no metro, 40 delas dando bom dias na padaria e quarenta aqui, se esbarrando. Mas de quem eu tenho mais pena mesmo é da pequenininha....tadinha.

- Não vale o que imaginamos e muito menos sorrir desse jeito pra cobrir o silencio que sempre fica e por isso sejamos concretos, ó  bancos, cimento, ferrugem. bolsa, cigarro, veja multi uso maça verde, sapato. O azul se espalha pela barca impossibilitando a busca por outras distrações e todo mundo prefere ficar de olho no meu... Ai eu espio. Eu espio porque é culpa dele. Do azul.

- Eu estava chorando porque era mais fácil do que rir, mas não traria diferença era só agua da baia com derramamento de óleo. Eu estava parada, de olhos fechados, tentando me equilibrar e ouvi uma baleia passando. Nem tao fria que parecesse cínica, nem tao perto para ficar cega. Eu fiquei ali, esperando que a baleia me engolisse, no auge da sua crueldade, ela foi embora e me deixou vivendo. Eu só lembro do barulho do meu estomago. 











domingo, 24 de março de 2013

Um giro na quase-queda

     De repente é exatamente a exatidão das coisas que geram o desequilíbrio. É essa tentativa  ridícula da recomposição no espaço concreto que faz a barca andar. A solidão de passos desorientados é o seu combustível. 40 delas procuram seus eixos, quatro disputam um mesmo lugar, duas pensam na probabilidade de se esbarrarem novamente e apenas uma conversa com a morte dentro do próprio umbigo.
       1,2,3... Todos. Todos contam como foram engolidos pelo entre e gaguejam pela própria incapacidade de se fazer desentender. A saída não é mais almejada. A solidão sim, porque ela faz barulho. O barulho torna-se companhia. É absurda a capacidade do universo em  tornar tudo cíclico. O processo de espiral prevalece entre nós, entre 40 delas que riem da instabilidade para disfarçar a dor da quase-queda. É compreensível a decisão do tombo. Para manter o equilíbrio é preciso suportar o instável. A queda torna-se alívio e a chegada veste-se de fim. O ciclo sempre continuará trazendo o vazio de um roda-roda sem crianças, girado  pela força do vento. É apenas o barulho gerado pela ferrugem  o responsável pela prova de sua existência.

terça-feira, 5 de março de 2013

Ruína da barca


Só meu.
Velhinho me olhando de cima abaixo. Um menino do lado que parece estar o acompanhando. O menino vai ao banheiro sem dizer nada. Que estranho. Logo depois vai o mais o homem velho. Um homem na porta do banheiro olha para a porta se fechando, em seguida me olha cheio de comentários. Acho que ele queria me dizer alguma coisa mas desistiu. O homem mais velho volta depois de um tempo que não saberia dizer, continua me encarando. Será que ele é pai do menino? Menino volta e parece que disfarça alguma coisa. Será?! Ficantes? A barca chega no destino, o menino se levanta e vai embora destruindo todas as minhas expectativas. O velho vai atrás.

domingo, 3 de março de 2013

Expectativas depositadas em objetos aleatórios

A cena e os espectros: melancolia, luto e fantasmas.

A Melancolia aparece como figura iconológica na medicina, filosofia, artes, literatura, e astrologia    articulando história e poética, cada qual com suas diferenças.


Século XX
“Luto e Melancolia” Freud - 1917
A Psicanálise relativiza o diagnóstigo assim como a Melancolia ocila entre contrários e não possui validade universal. Na psicanálise o sintoma está no discurso não no conteúdo. Agora é desde sempre. Freud procura entender no texto as diferenças e semelhaças do luto com a melancolia.

O luto consiste em um trabalho de superação da perda de um objeto de amor, desejo. Depois de imensa atividade psiquica o sujeito pode deslocar a sua libido para outro objeto de amor, se desligar do objeto perdido. O luto não é natural, é um trabalho cujo sucesso não é garantigo. “O luto poe o mundo em movimento” Agamben.

O melancólico muitas vezes não sabe o que foi perdido. A melancolia é uma patologia do luto, um luto fracassado. O sujeito se indentifica com o objeto perdido e a perda caí dentro. Caráter de auto-acusação, lamentos, queixas sobre si próprio. Ao mesmo tempo que se identifica com o objeto, então o investimento libidinal também caí dentro produzindo uma regressão narcísica e uma cizão do eu. Amar o objeto que cai em si e odiar a parte que ama. Um duelo interno que às vezes, na tentativa de matar o objeto introjetado, mata a sí próprio.
“A sombra do objeto cai no ego” Freud
A melancolia se apresenta para Freud de forma enigmática e paradoxal. A posse de uma perda se traduz na tentativa de se apropriar do inapreensível. Tomar posse de um impedimento, de uma impossibilidade  Realizar a fantasia, não o real. O melancólico contempla os próprio fantasmas e lida com o impossível como um fracasso.

Ambivalência. O obejto perdido é ao mesmo tempo:
PERDIDO  x  APROPRIADO

O melancólico se queixa, precisa se comunicar, se auto desnudar e também dissimular. Há uma dimensão auto-crítica na queixa do melancólico, no pensar sobre seu pensamento e ao produzir a fala.

Agamben pensa que a operação artística no viés da melancolia se apropria do inapreensível, torna a realidade impossível, perde a realidade no momento que dá forma a ela.

Ambivalências:
Aristóteles - atividade intelectual imaginativa intensa (exaltação do pensamento)

- torpor físico, imobilidade (abatimento do corpo)
Medieval - Acedia (inércia): Demônio do Meio Dia. O sol está maior, mas coberto por uma
sombra. Tensão de contrários: Sol Negro
Barroco - Saturno: demónio das antíteses: gere e engole seus filhos
- Pascal: "A grandeza do homem é grande  naquilo em que ele se conhece
miserável"
Freud - ambivalência: amor e ódio. O amor pelo objeto perdido é imenso. partição em dois:
amar o objeto que cai em si e odiar a parte que o ama

(Resumo da matéria ATAT - Ângela Materno)

valsa



"O Arcano Menor 11 de Arco Íris - Aventura - Existe perigo por trás de todas as experiências da vida"

Nasceu sabendo do breu em que caminhava. Teimava em não pedir ajuda.
Era pra manter o coração pulsando vivo, as veias vivas, os pés...
Dentre tantos, esse foi só mais um passo que não escolheu dar. Achou parar duro demais.
Cambaleava torta na sua escuridão.
Sua Sorte foi ser abraçada pelo Abismo.

De onde vem isso que nos faz dar um passo depois do outro? Um passo depois do outro isso me veio, acho que foi nas Barcas se não me falha a ruína. O Mar  a minha frente, dançando, e eu pensando: como parar? Como negar o movimento dos pés? Esse parar é sério demais, pensei. Aí continuei, e foi só..

abismo


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Para o homem sobre Ana.

Opaa! Perdão,desculpas,me perdoa. Sério. Juro que vou sumir... Enquanto espero ficarei aqui tão quietinha que ninguém perceberá  minha existência. Nem mesmo eu. Então pare com essa mania irritante de ficar contando os meus gestos. Não é pra você nem ninguém me perceber, tocar ou mesmo ficar nessa tentativa inútil de salvar minhas palavras que vão caindo nesse abismo inacessível. Por isso prefiro me esconder atrás dessas metáforas. Eu sei que a gente nem se conhece mas eu precisava te fazer uma proposta que eu comecei a elaborar nos últimos minutos: Ao invés de ficar explanando a minha semi-inexistência fracassada , porque não me faz metáfora e pronto?. Não somos nós criação da sua cabeça? Não é você que tem o controle de tudo isso? É só inventar. Você é o dono do controle. Me reinventa metáfora e estará tudo resolvido. Eu sei que não vai me atender. Então pare de me olhar assim. Olhe para ela, que dança, ri e não tem medo de nada. Eu tenho. De gente. Aliás, ela faz questão de existir, dela não dá pra fugir, pois , mesmo se a gente fecha os olhos assim ó, dá pra sentir o cheiro da maçã verde que exala de seu corpo e que espalha por todo o espaço. Ela é a maçã, o espaço e a barca, tudo isso ao mesmo tempo. Não se pode duvidar que se chama Ana. E Ana só pode ser. A sua abundância de existência transborda em si e isso a faz com que exista menos. Queria existir menos. Queria ser Ana. Todos querem. E é por isso que a sua forma de limpar incomoda tanto. Ana existe menos e mais. Veja bem, meu nome aponta algo que não existe em mim e não adianta inventar histórias. EU NÃO TENHO CABELOS VERMELHOS, OK? E nunca tive. Por isso vivo do presente. Ele costuma passar muito rápido e as pessoas o esquecem com facilidade. Então beijarei meu umbigo porque se não faço...ah, você sabe... não durmo e fica cada vez mais difícil porque você descreve até os meus sonhos e não dá mais para fechar os olhos e pensar em outra coisa que não seja maçã.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Um esbarrão pra acordar.


-  Como você tem coragem de acordar só agora? Lá fora o mundo  explode desde cedo e você aí com esse pijama ridículo do pato Donald. Qual a sua idade? Eu nem preciso saber exatamente para perceber que Pato Donald não dá mais.  Você foi a Disney não foi? Tanto lugar pra escolher e foi logo dançar e cantar com o próprio capitalismo em pessoa! Sabe a porcentagem de analfabetos em nosso país? Isso sem contar com os funcionais e nem adianta me olhar com essa cara e esse  iogurte diet cheio de Aspartame. Sua mãe tentou te ligar sete vezes para te perguntar sobre o natal, mesmo estando em setembro já é preciso pensar em todas aquelas pessoas desconhecidas que temos que nos encontrar pelo menos uma vez ao ano. Aliás o que iremos dizer ao Télio? A filha dele, aquela gordinha que é sua prima ou sobrinha  está com câncer de mama. A culpa foi do Aspartame. O aluguel vence hoje e precisamos  estar as duas em ponto no chá de bebê da Jude. A menina com dezessete anos já engravidou, o outro que mora ao lado já está formado e já empregado aos vinte, tem futuro promissor, aquela lá se apaixonou, casou e terminou tudo isso aos dezenove e você com o Donald e o Câncer. Não que eu queira que engravide agora, mas o tempo está passando e a gente tem essa terrível mania de ir existindo ... um dia acaba. E como quer acabar? Comendo Iogurte que não. O porteiro mandou avisar que precisaremos concertar nossa área com urgência, estamos causando problemas pro vizinho, e por falar nele, se ver um gato preto de manchas brancas por aí é dele. Se perdeu, coitado. Um animal tão pequeno nessa cidade toda não dura muito. A ponte está toda parada. Morreram dois jovens e uma grávida em um acidente. Três mortos e oito feridos. Na verdade foram quatro mortos , porque a grávida... Que horror.  Sabe que horas são? E o seu cachorro preso em casa. Tem almoço na geladeira e é só esquentar no micro-ondas mas não se esqueça de ligar no transformador porque aqui tudo é 120. Micro-ondas mudou, não mudou?  Eu estou me referindo ao acordo ortográfico. Aliás, me responde a uma pergunta: Tudo o que dizemos e escrevemos é apenas um acordo? De quem? Pra quem? E se eu não quiser cumprir ele? Existe multa para quem não acentua as ideias adequadamente?  Quando eu souber para onde vão os ideais inadequados  tudo será resolvido. E quando VOCÊ vai resolver  resolver tudo? Não.  Eu não gaguejei ,os resolveres foram colocados propositalmente com objetivos diferentes. Preste mais a atenção.  Já perdi muito tempo e vou me atrasar para...para...vou me atrasar para  o meu tempo livre e olha que tem muita gente que não tem mais isso.Absurdo,  né?  Isso tudo. Existem pessoas que não tem mais um minuto de descanso e você aí com essa cara amassada.  Cara de pau...devia ter vergonha. E vê se chega cedo, não vai dar bolo outra vez hein? Ah, e por falar em bolo, parabéns. Qualquer coisa é só ligar pra esse número que o aniversário vem pronto, com bolo, vela, pedido e até convidados se quiser. E vê se tira esse Pato Donald...o que os convidados irão pensar?   Só não demora muito porque o relógio,ó, tá sempre correndo e você ,ó, iogurte,pijama, ó, câncer,a gravidez inesperada, a gravidez inesperada com morte inesperada, ó, o acordo....mas , ó , aproveita , tá? É que não é sempre que se faz anos. Ah, bom dia. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Só de azul.


Não. Definitivamente não vale o que imaginamos e nem sorrir desse jeito pra cobrir o silêncio que sempre fica. É sempre assim: O azul se espalha pela sala impossibilitando a busca por distrações em outras cores. Eu e o azul. Se ao menos houvesse vitrais nessa janela os olhares poderiam se desviar de vez em quando e daria tempo para disfarçar a ansiedade de se suprir algo de que já não lembro mais  se existe. Aí os pés se movem numa ansiedade verdadeiramente planejada para disfarçar a espontaneidade falsa. Ainda existe muito azul para pouco eu. Dou uma espiada. Espiadela de nada. Juro. Um, dois, três pares de olhos que se multiplicam quando olhados dessa posição. O corpo reage com um sorriso tímido que começa bem pequenino e logo se espalha pelo rosto inteiro engolindo algumas das muitas sardas. Tenho a impressão de que as palavras que menos queremos demonstrar são as que sempre ficam extremamente estampadas. Talvez tudo isso seja culpa do azul e por isso que vou começar a contar por ele. Não vale porque não é concreto, entendem? Temos que ser concretos porque se não vira bagunça com facilidade.  Eu tenho que contar né? É que todo mundo chegou aqui e contou. Eu vou contar as tomadas, depois os tacos do chão. Aí eu vou contar os livros. Depois os canos… depois eu conto os dedos e as sacolas plásticas...não....do início porque tem a história das persianas e da rinite... Também tem um caso curioso... como era mesmo? Havia algo parecido com barcas e sangue...não...Acho que sonhei.... ou foi uma piada. Os pés voltam a bater com força. A perna aberta e empapada reforça ainda mais o que eu não queria dizer. Se mais alguém aparecesse eu iria me jogar  e dizer:
      - Agora tá com você!
Não dá. Afinal, sou uma mulher e se um corpo for encontrado....assim..não...eee...ah,não sei explicar. Deixa pra lá. Acho melhor não. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Na época, isso foi agora! E ainda hoje parece nunca ter sido.

2 de abril de 2010

Nas vezes em que não me sou, devo ser ela. Cheguei numa fase de enjoo e desgosto. Que nojo o cheiro doce industrializado das mesmas vozes. Com quantos telefonemas não atendidos se constrói a distância? Estou acostumada a deixar meus amigos para trás. Mas sempre tendo em vista outra coisa. Desta vez estou sozinha, sem ponto de fuga e sem vontade. X viaja em duas semanas para passar 3 meses no Canadá. Y deve se mudar em um mês para a Europa. Queria que eles fossem amanhã. Daqui a pouco eles me esquecem. É só eu continuar não existindo. É isso que tenho feito, aliás. Não existido.

ela

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido...

Era uma meninazinha, menor do que menina, mais miúda do que menininha, quase muda a coitadinha. É que certo dia, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido, ela contava até dez em voz alta, aguda, altíssima para uma meninazinha inha que nem ela e a mãe deu-lhe um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto nas aulas de matemática. A mãe era matemática, não de ofício, de alma. Exata, numérica, regrada, difícil, calculista, escalena, reta, obtusa. Mas a meninazinha quase muda ainda era feliz. Mesmo detestando matemática podia ser o que quisesse. E brincava de ser tudo, até meninozinho. Um dia a professora viu e deu-lhe um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto com os meninos. Mas meninazinha continuava feliz, podia ser tanta coisa ainda que fosse menina o tempo todo. Um dia, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido, resolveu ser atriz. Era uma maneira de ser tudo o que queria numa vida só. Contou ao pai, levou um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto no cinema. A essa altura era a menos meninazinha das irmãs e precisou começar a trabalhar. Empregou-se numa confecção de embalagens plásticas. Doía feito tapa. Mas meninazinha podia ser tanta coisa dentro da cabeça. Um dia inventou de se apaixonar, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido. Contou a uma amiga que deu-lhe um tapa na boca. "Ele não presta" disse enquanto casava com ele na semana seguinte. Outro se apaixonou por meninazinha, quase muda, quase mulher. Disse que não queria, Outro deu-lhe um tapa na boca. Depois ninguém sabe porque chora tanto em casamento. Meninazinha não queria filhos, não gostava do que o mundo fazia com as crianças, após um segundo tapa de Outro engravidou. Depois ninguém sabe porque grávida chora tanto. Um dia, na verdade na época isso foi ontem e ainda hoje parece ter sido, nasceu o filho. Meninazinha quase muda, agora mãe, já não era mais feliz, mas ainda assim não conseguiu odiar aquela coisinha tão pequena, tão miúda, quase muda que nem ela. Amou o filho. Mas quando abriu o berreiro ainda no hospital tratou de dar-lhe um tapa na boca. Ontem mesmo me perguntavam: 'Que diacho de criança é essa que não chora?'

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

alô, alô!! Wanda? E agora, como é que eu faço?


Eu quis tentar desistir em nome de um projeto. Quero dizer aqui que eu tinha um projeto! Era lindo!! Era tranquilo, o tempo, os pássaros, os amigos e eu mesma...! Ele era mesmo meu objeto de adoração e devo dizer que todas as minhas dores viravam suspiros quando eu lembrava dele!! Tocava até uma música!! Era lindo... era um projeto e eu sabia que... O mar... Eu nadava no mar. Sem parar eu nadava. E o projeto crescia e flutuava!! Por cima dos prédios e arranha-céus as folhas voavam... Gente!! Olha aqui!! Vem cá ver como ia ser lindo!!! Iam ter até cores!! Muitas cores! O que eu quero dizer com isso é que eu tinha um projeto!! E fui até Wanda, convicta de que seria o melhor pra todos. Eu me afastaria assim não tão afastada mas me afastaria para afinal deixar vocês com suas ruínas e eu com meu enorme projeto de lego colorido e flutuante.  E ela me disse que esse projeto não existia. É mole? Agora mais essa! Que pra construir não existe projeto, pra construir existe o presente. E nunca se sabe como as coisas vão terminar... Acreditar num projeto é uma escolha medíocre, ela disse... O pior é que ela sabe que eu nasci pra projetar!! Essa é a unica coisa que sei fazer na vida! Passear pelos tempos.. Porra, Wanda, você sabe!!! eu disse. A Wanda me chamou de medíocre e o pior é que eu concordei. Projetar é ruína. É pisar na ruína pra dizer que ali vai existir... Já existe, só existe. Agora não dá mais tempo. É, Wanda...  Estou aqui. Já enxergo os pedaços, os cabelos, as borboletas, as orações... Mas se o concreto me tira tanto, e você me tira o meu projeto... Pra onde eu vou?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Versão do texto do Caio - Abismo entre o sofá e a tevê.

Por favor, não me entenda mal, a gente nem se conhece, mas eu precisava falar algumas coisas que eu comecei a pensar nos últimos minutos. Ou seja, se nem eu e nem você sabemos como viemos parar aqui quem será mesmo a testemunha do nosso fim? Quer dizer, aquilo que não tem nem mesmo início registrado pode terminar e ser classificado como dado, acabado? Olha, eu sei que o meu discurso pode parecer um pouco confuso ou até mesmo egoísta. Mas na verdade eu estou tentando clarear um pouco as coisas. Tudo bem? Como eu ia dizendo, me lembro de estar sentado, tomando uma boa caneca de café e, naturalmente, fumando um cigarro. O dia não estava muito quente e a manhã parecia de domingo. Maria Bethânia dizia coisas tão lindas que o meu corpo se desdobrava em música, derramando canção pelo espaço. Ela cantava e eu repetia. Era uma manhã comum se não fosse pelo barulho que atravessou a sala. De repente um estrondo, um buraco que se abriu no chão entre o sofá de três lugares e a televisão que não é de plasma. Sem aviso prévio, algo resolveu cair, aqui bem no meio da sala, e CABRUM! acabar com tudo. O objeto não identificado caiu, abriu buraco no chão, fazendo passagem entre um apartamento e outro. Depois disso, bem depois disso era só poeira e ficou difícil de identificar os próprios móveis que eu mesmo havia escolhido. Fiquei com medo, confesso. É sério, por favor, não ria de mim! Pode parecer bobo, mas quando se recebe algo que não se espera a reação de espanto é uma coisa comum. Pode acontecer com você também, entende? Demorou acho que uns vinte minutos para a poeira baixar e eu poder conseguir voltar a ver o apartamento. Durante este tempo, eu fiquei sentado no chão, segurando a caneca de café, o cigarro fumado e Beth já não cantava mais. Depois da poeira veio a claridão. Uma luz tão forte vinda do buraco abarcou o apartamento por inteiro. Neste exato momento eu pensei: meu Deus, acho que não estou vestido de forma adequada para receber visitas de outro mundo. Eu usava uma camisa regata rosa e velha com pequenas caveiras estampadas. Em outros tempos, usando essa mesma camisa, fui objeto de desejo e tensão através dos olhos de outros rapazes. Além dela, uma cueca samba canção vermelha com miniaturas de vacas também estampadas. Ou seja, eu era, na verdade, uma visão bem mais extra-terrestre do que qualquer outro que pudesse aparecer. De onde? Como assim de onde? Do buraco. Foi nesse meio tempo que fui atravessado por uma enorme vontade de urinar. A minha bexiga parecia ser maior que o buraco, mas para chegar até o banheiro eu precisava passar por ele - o buraco. Mais uma vez tive medo e, apertando com as mãos o ventre, desejei que a vontade passasse para que eu não precisasse cruzar o enorme abismos que agora morava no meio da minha sala. Você pode, se quiser, achar insano tudo isso que eu estou dizendo, mas eu realmente acredito que nessas minhas últimas lembranças esteja a saída para descobrirmos em que lugar estamos. Depois disso, não me lembro mais de nada. Olhando para mim agora, vejo que não estou molhado e nem com a roupa suja. O que me leva a constatar que a vontade de fazer xixi deve ter passado ou aqui neste lugar que estamos as pessoas não fazem xixi. Aliás, você já fez xixi desde que chegamos? Desculpe a pergunta imprópria, se não quiser responder não precisa. É que a gente nem se conhece tão bem, mas eu precisava falar sobre essas coisas que eu comecei a pensar nos últimos segundos. Posso lhe pedir um favor? Você seria capaz de medir os meus membros para ver se eles aumentaram. É que desde que chegamos aqui sinto uma dor enorme no corpo... Parece que estou carregando algo realmente maior do que eu costumava ser. Por favor, diga alguma coisa mesmo que seja mentira. Eu adoro mentiras bem contadas. Na verdade, tudo que é farsa me envolve como nenhuma outra coisa. Será que por aqui conseguimos encontrar um cinema, uma pequena lojinha para comprar cigarros e uns chicletes. Hein? Moça, pelor amor que você tem aos seus filhos, se é que você tem filhos, não me deixe falando aqui sozinho. Hein? Moça? Bom, quando você terminar o que tem pra fazer, me responde, ok?