fragmentos do trabalho de João Castilho

quarta-feira, 31 de outubro de 2012



quando eu vomitar as borboletas tudo será resolvido.

Memória metalinguística- Ontem achei um caderno de álgebra...


Saudades daquele futuro da infância, em que eu tinha mais de 1 metro e 60 e você ainda cavalgava por aí, com espada, coroa e o escambau. Tudo era sempre começo. O futuro acontece primeiro em nós e quase nunca condiz com o que vem a ser de fato. Melhor, arrisco dizer que só existe o primeiro, de dentro, inventado e o resto é tudo presente espalhado debaixo de um monte de árvore de natal, cercados de papai Noel, Coelhinho da Páscoa e outras mentiras mais graves. O meu futuro era ótimo! Embora fácil demais. Aí não serve. Não é assim que a gente aprende no teatro? Nada podia dar errado, risco zero, vitória garantida, felicidade plena, eterna corrida pro abraço, eu tinha mais de um metro e sessenta olha aí?! Pra você não devia ser tão bom. Cavalgar se torna cansativo quando só se faz isso 24 horas por dia, ou mais! Meu futuro era um dia só, um dia imenso, de 24.000 horas pelo menos. Sem falar no passado que ele carregava em que eu atuava com o Al Pacino, a Laura Cardoso, o Jhony Depp, o Tony Ramos, o Anthony Quinn, o Pedro Cardoso, a Audrey Hepburn, o Paulo Autran, o Brad Pit e o Selton Melo. Fernandão não aguentava mais ser minha avó, toda novela era isso! Eu chorava cantando “Carolina” com o Chico e o Caetano juntos em minha homenagem. Eu tinha filhos e te dava um descanso da cavalgada. Você ia do cavalo pra cobertura na Vieira Souto que às vezes era casa na montanha e até Ilha deserta quando me revoltava com o mundo. Eu ajudava uma porção de gente, tinha escola de arte, projeto na África, em Bié pra ser mais precisa, sede no Nordeste, eu era praticamente um Deus. Pra quem já quis ser Papa. Juro! A minha primeira decepção foi saber da impossibilidade de me tornar Papa. “Que injusto!” esbravejei contra o machismo no auge dos meus cinco anos e meio. Quanta memória cabe em 1 metro e 58? Se depender de volume tem alguma coisa errada ou então sou 95% lembrança e 5% de água. Acho que fiquei desidratada de tanto chorar. Eu devia te fazer cavalgar até hoje sabia?! Era tão melhor quando a solidão era compartilhada! Dois vazios imensos e uma lua no meio. Agora que sou eu e esse Austríaco louco que grita qualquer coisa dentro de mim, esse hóspede estrangeiro que tampouco conheço e nem ao menos fala a minha língua. Meu inglês é ruim, mas ele também nem se dá ao trabalho de tentar, continua balbuciando esse quase alemão desesperador. O pior de tudo é estar a sós com ele. Um pouco de idade a mais nos pés faz falta em momentos como esse. Mas sequer completei os dedos, o resto é pose de quem sempre teve que se fazer de maior e ainda assim é barrada em porta de boate. 17 é pouco, mas o suficiente pra cortar um futuro em pedacinhos e espalhar pelos quatro cantos do mundo.Será que vou ter que recolher tudo nos próximos 83 anos que me restam? “guarda tudo depois”, não é assim que a gente aprende? Será que o estranho veio me trazer os dois pedaços de futuro que caíram na Áustria? Será que um dia terei um Japonês dentro de mim? Como é que está o seu cavalo numa hora dessas? Quantos presentes cabem debaixo da nossa árvore de natal? E se eu falhar? E se alguém encontrar parte desse futuro e se negar a me devolver? E se te acharem primeiro? Hein? Eu me mato! O quadro cada vez mais cheio de funções e logaritmos e eu aqui com questões tão mais intrigantes. Dá vontade de levantar e escrever os meus problemas também. Sempre me diverti com a possibilidade que carregamos de enlouquecer a qualquer momento. Deveríamos usa-la de fato com mais frequência. Será que um dia serei capaz de ao menos ler isso tudo pra alguém? Será que o farei com a mesma tranquilidade com que revelo meus devaneios papais. Acho que não. Tenho a impressão de que já envelheci tudo antes. Agora resta colecionar cacos e marcas, enquanto espero as pernas cansarem. O sol sem protetor dos 15 começa a fazer efeito junto com a Vodka da formatura, os Mc Lanche felizes e saltitantes por causa do brinquedo da infância, a futura cerveja da faculdade, as noites viradas do vestibular, das festas, das angústias, das cólicas, dos filhos que chegam, dos filhos que não chegam, dos filhos que seguem, dos filhos que tem filhos, do fim que tarda mais sempre aparece. 

...

[diálogos que nunca existiram]

Memórias da ausência.

                    Daqui a vista parece truque. Vamos colocar os corpos nos eixos e resolver tudo de ordem aleatória como em contos de flor. Queria que chovesse pelos ouvidos e que todas as possíveis palavras fugissem e nunca mais dessem as caras. Os corpos permaneceram na mesa de lembranças. A gente podia guardá-los e de vez em quando brincar de quebrá-los sempre quando as asas tomarem frente. Assim podemos fingir que ficamos tristes com a falta de memória. E se o corpo for a flor? Não. Agora não quero pensar em idiomas de continuação. Vamos enquadrar as trepadeiras do quintal e tudo estará resolvido. Tudo sem acordo algum. Sem fita.Sem barco.Sem sempre.Sem colo. Sem sétimo sentido que nos condena.
                    Tô indo mãe, só tenho que terminar de contar esses dias, preciso separar os azuis dos verdes e os verdes dos vermelhos, não posso me esquecer de nada ,  juntar as noites e principalmente embaralhar as pálpebras para não mais se ter dúvidas da minha ausência. Preciso separar em ordem alfabética algumas partes de mim. Alguém perdeu essa etiqueta? Se não tiver dono é minha. Quando eu terminar a coleção tudo estará resolvido. Quando eu aprender a fazer cores de mentira tudo estará resolvido. Quando eu separar essas agulhas tudo estará resolvido. Quando eu pontuar os pássaros no papel tudo estará resolvido. Quando algum poeta cuspir na minha cara tudo estará resolvido.
                       Quando eu começo a entender embaralham-se novamente os truques e partimos para outras janelas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nova Friburgo, ano 2011/2012

Foto Luciano Martins Ratamero

eu só busco um objeto para pousar minha admiração

Por favor, não me entenda mal, a gente nem se conhece, mas eu precisava falar algumas coisas que eu comecei a pensar nos últimos minutos. Também não é sempre que eu paro no meio do meu caminho, quando eu tenho um objetivo eu cumpro o objetivo, mas é que tem feito muito calor ultimamente e o sol racha meus neurônios e talvez isso seja um motivo pra eu desviar dos meu pensamentos concretos. Eu não estou falando de concreto, cimento, não, não é nada disso, na verdade é bem mais subjetivo que isso, é quando você encontra... eu vou desviar um pouco do sol, porque parece que as coisas estão ficando abstratas. Eu entendo que para uma pessoa que esteja passando pela estrada isso acabe virando um papo cansativo, mas não existe quem entenda mais de cansaço do que eu, na verdade, me desculpe, acho que meu pés acabam falando por mim e eu perco a voz. Já faz alguns meses que eu observo essa mesma composição do espaço, cimento, carro, sol e mato e as vezes eu penso que isso é invenção da minha cabeça, eu acordo de pé, me vejo rodando em mim sem saber porquê. Eu sei que eu iniciei isso tudo porque eu queria chegar em algum lugar, talvez um lugar há 4.000 km da onde eu parti, mas isso agora não é muito claro. Eu só busco um objeto para pousar minha admiração. É isso. Quando você sai em romaria por meses em busca de objeto para adorar. Quando você constrói pra você mesmo que aquilo é a solução de tudo, quando você destrói tanto sua vida quanto seus pés e aí já não tem quem diga que deus não existe, 
e aí construção e destruição já não se distinguem, quando você deixa tanto de viver que você acorda no dia seguinte sem memória e único jeito é continuar andando pra frente, buscar um objetivo, seguir uma verdade. de repente é esse mesmo o caminho, de repente é a verdade mesmo e ela existe porque se não for ela não tem pra onde ir. de repente a expectativa come meu próprio intestino, antes mesmo do milagre acontecer. Eu só preciso beijar os pés da santa. é só isso. Quando você terminar o que tem pra fazer, me responde, ok?



Depois

depois de muito tempo, mais muito tempo mesmo, depois ainda de ter olhado em volta várias vezes; de ter coçado as feridas da perna; de ter sentido sede e preguiça é que se dou conta de que não estava em casa. e que também não conhecia a paisagem que lhe abrigava.