... por mais distraídos que fôssemos, ainda era preciso buscar distrações
fragmentos do trabalho de João Castilho
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Só preciso te dizer tudo isso, porquê confio na probabilidade de nunca mais te ver.
"Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria (...) você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualqueratraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um diadestes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê." Caio Fernando Abreu - Para uma avenca partindo
sábado, 25 de agosto de 2012
ânsia
Aconteceu-me
qualquer coisa; já não posso duvidar. Por mais distraído que fosse,
ainda era preciso buscar distrações. Não deixar escapar as diferenças de
pormenor, os fatos miúdos, mesmo quando parecem insignificantes, e
sobretudo ordená-los. É
preciso não achar estranho o que não tem estranheza nenhuma, o comum. O
perigo é exceder-se constantemente a verdade, exagerar o breve. Nesse espaço não há
nada que se chame de um acontecimento.
ok
Por favor, não me entenda mal, a gente nem se conhece, mas eu precisava falar algumas coisas que eu comecei a pensar nos últimos minutos. Talvez eu já venha pensando há algum tempo, mas como a gente só se conheceu agora, acho que posso começar a formular ou talvez eu só vá dando vazão ao que eu preciso dizer de forma que você tente arquitetar as minhas ideias como suas e de alguma forma crie uma linha que não necessariamente tenha sentido, mas que siga alguma direção ou simplesmente nos ponha em outro lugar. Escuta, com isso não estou querendo falar do vácuo onde a gente se encontra, a essa altura, falar do vazio seria como falar se chove ou faz sol. Estou tentando ir um pouco além do que a gente não sente, sei que a gente acabou de se conhecer, mas tem uma coisa aqui e eu sei que você também sente, porque é visível pela sua inexpressão ou pela sua falta de vontade de continuar me ouvindo, talvez porque a gente nunca tenha chegado a se conhecer, mas do início até agora eu sei que você sabe que alguma coisa mudou e que você sabe que eu preciso ir até o fim, porque talvez nada mais seja real e eu não estou falando do que existe de fato, mas do momento em que tendo alguma coisa para dizer e achando a pessoa que precisa ouvir, a gente ganha consciência de que mais nada poderia estar acontecendo e mesmo que esteja não é um fato e não estou falando de história e de linhas, embora esteja, o que eu quero dizer é mais simples e um tanto mais incomum apesar de banal e é que sempre que eu te vejo embora essa seja a primeira vez por favor não entenda que estou te seguindo apesar de sempre saber que você existe e mais uma vez não estou falando de existência é que as vezes as palavras nos obrigam a usá-las mesmo sem que de fato queiramos dizê-las e isso se aproxima um pouco de onde eu quero chegar ainda que mais distante do que antes não pelo campo linguístico talvez algo mais magnético não se preocupe não vou falar de metafísica embora só saibamos dizê-lo com tudo que a gente lê e não me venha dizer que você não lê porque os que não leêm acabam por ler mais por uma questão de condição mesmo não de classe de classe não mas de achar que passar o olho não é ler e com isso acabar lendo mais coisas sem o saber e desculpa me desviar do nosso foco ás vezes é difícil não encaderar ideias por mais que façamos esforço para simplesmente dizer as coisas acabam falando por nós e esse esforço ridículo ri da gente como aquelas babás que descontam suas ridículas roupas brancas nos bebês-ruínas para se sentirem um tanto mais humanas e não estou falando de identidade é algum muito mais sutil e vago talvez mais relacionado ao se intromete no meio do que se diz do que ao que se diz de fato não que eu tenha algo para dizer por favor não vá embora antes de eu concluir meus pensamentos juro que não vou chegar a nenhum lugar você me conhece tão bem que pode prever tudo que eu tenho pra falar antes que eu o diga e toda vez que eu começ você faz a mesma expressão e eu sei o quanto estamos nos entendendo porque temos algo não eu e você mas o que eu tenho pra dizer e o jeito que você escuta em comum com o lugar onde as coisas vão quando são ditas que de todos é o mais claro não quero com isso ser obscuro por favor não me entenda mal mas no minuto que comecei a decidir que dizer seria mais importando que demostrar encadeei algumas coisas que talvez não estivessem lúcidas o suficiente antes para virarem o que estava por vir que talvez ja tenha ido mas talvez com menos certeza e mais decisão possa vir a ser o que de fato não importa e com isso esteja mais livre para ser o que de fato é não que as coisas sejam ou que ser as coisas seja outro questão de ser que não a coisa em si e o ser não sendo mas toda vez que eu penso sobre isso mesmo essa sendo a primeira a sua imagem ganha mais forma em perder-se da forma do que em continuar te sendo e por isso eu vou ficar aqui. Quando você terminar o que tem pra fazer, me responde, ok?
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